O PINTOR E SUAS SOMBRAS . RAFAEL CIPPOLINI

A pura luz e a pura obscuridade são dois vazios que são a mesma coisa.

Apenas sob uma luz determinada – e a luz é determinada

pela obscuridade – e portanto apenas sob uma luz enturvada, pode se

distinguir algo.

 

G. W. F. Hegel, citado por Víctor Stoichita

 

 

 

Um dos vícios mais atraentes de muitos artistas modernos foi utilizar a datação de suas obras como fator antecipatório (penso agora em James Ensor, em Giorgio de Chirico, e seria fácil multiplicar os exemplos). Eles costumavam arcaizar suas pinturas ao datá-las antes do dia, mês e ano em que haviam sequer sido pensadas. Adulteração, licença poética? Uma exclui a outra? Vamos converter o gesto em premissa e levá-lo um pouco mais além. Não poderia se tratar, ao modo de uma observação em espécie, de uma indagação deslocada sobre a arbitrariedade das correspondências entre figura e tempo?

De fato, o que é uma imagem fixa senão tempo em repouso?

Invertamos agora a equação. Diante do paralisado sossego da fixação histórica, gerações de artistas se dedicaram a projetar variáveis. Variações. Recorrências do detalhe. Tensões. Pacientes – e muitas vezes virtuosas – defasagens. Não com o fim de alimentar o glossário de formas, mas a fim de detectar (e convidar a percorrer) os caminhos anunciados e ainda não percorridos. Um membro contemporâneo e destacado deste clã de modificadores é sem dúvida o artista que nos ocupa, Max Gómez Canle.

Mais que uma retórica da variável, o que ele parece nos propor é uma propedêutica. Uma imagem fechada fatalmente implica um número acidental de métodos e instrumentos de leitura que contêm – ao mesmo tempo em que restringem – a potência da mesma. A ação de Gómes Canle não atua sobre esses instrumentos, e sim na confecção da própria imagem.

Nesta exposição, propõe três tipos de recursos não excludentes: primo, um fator de intromissão – que observamos na morfologia de sombras e nos reflexos aquáticos geométricos-; secondo, um fator de superposição – presente no tríptico de nuvens-; e terzo, um último fator, talvez mais amplo, que denominamos provisoriamente como cotejo de materiais, reunindo obras tão diversas como um estudo sobre Torres de Babel pintadas no século XVI (nada menos que um século de Torres de Babel), um cone tridimensional que altera a bidimensionalidade do papel e, finalmente, uma investigação sobre as distintas tonalidades da cor negra (assim como os esquimós reconhecem distintos tons de branco, Gómez Canle ensaia a interação de diferentes densidades da obscuridade).

Resumindo: com a soma de proposições de cada um desses fatores – dos presentes nesta exposição e dos que vem propondo desde o início da década passada -, nosso artista constroi um mundo, isto é, um estilo. Sua alusão propedêutica não é nenhuma outra coisa: na intimidade de seu método, cada imagem não é apenas um capricho, mas também uma enciclopédia visual que esquadrinha os ensinamentos de uma tradição inesgotável.