FRAGMENTOS MUTÁVEIS . LUISA FUENTES GUAZA

O erro como parte do processo de materialização plástica, a exploração do transbordamento do pictórico para a tridimensionalidade e o fragmento como resto arqueológico pessoal são algumas das variáveis que confluem na proposta expositiva de Viaje largo con un extraño, do artista Guillermo Mora (Alcalá de Henares, Espanha, 1980).

 

Viaje largo con un extraño resgata, através da justaposição de fragmentos plásticos irregulares, o espírito da acepção portuguesa de barroco[1], a qual concentra-se na dor psicológica do homem em busca de ancoradouros sólidos. São ancoradouros simbólicos que, na produção do artista, atuam através do uso da cor.

 

Nos encontramos diante de uma paisagem construída a partir de um espaço fronteiriço e experimental, onde a pintura transborda, onde o pictórico se transforma em escultura. Uma paisagem que nos fala de causalidade, erro e incerteza, resgatando parte do imaginário do universo físico de Gödel, onde existem curvas temporais fechadas e um observador pode ver a si mesmo no passado.

 

Esta paisagem escultórica nos convida a ressignificar cada um dos volumes que a configura, através de uma volta ao Perspectivismo, no qual identificamos a impossibilidade de construir uma teoria coerente que possa se aproximar da realidade de modo sistemático e contrastante, a não ser através de observações pontuais e particulares. Nos encontramos com fragmentos escultóricos que atuam como rastros dessa dor psicológica herdada que busca a transformação cinética dos campos vibracionais da cor. Cor e matéria se fundem para nos lançar em uma experiência escultórica pós-estruturalista marcada pela reconstrução e renovação de formatos construídos através da experimentação causal do procedimento de tentativa e erro.

 

Mora nos lança em um espaço relacional plástico onde a cor transcende seus limites físicos e se converte em potencial ilimitado para a transformação do pictórico. Peças construídas através da cor solidificada, cor matérica, cor transbordada – carregada de conotações escultóricas – que resgatam a noção de mutabilidade cromática – como situação evolutiva no espaço e no tempo – e tornam visível uma poética da essência onde o tempo é curvo.

 

Viaje largo con un extraño coloca o observador num lugar escultórico incerto onde o imaginário simbólico se reconstrói, não introduzindo um novo conceito que sucede o antigo, mas sim uma transformação-deformação geral da lógica do espaço[2].

 

Uma paisagem mutável e transbordada.

 

 

Luisa Fuentes Guaza


Luisa Fuentes Guaza (Lorca, Espanha, 1979) é curadora independente especializada em arte jovem ibero-americana. Autora do livro Ustedes nosotros. Jóvenes artistas iberoamericanos, editado pela Index Book, 2010. Atualmente é membro da equipe de trabalho do projeto experimental "Ranchito", no Centro de Creación Contemporánea Matadero, Madrid, como curadora.

[1] A versão original em espanhol usa o termo barrueco que também significa "pérola de forma irregular" ou "joia falsa" em espanhol.

[2] Conceito extraído do livro Melancolía del Arte de Sarah Kofman, editado por Trilce, em Montevidéu, em 1995.