DANIEL LIE . LIE LIONG KHING . PAULA BORGHI

Pernambuco (Brasil) e Ilha de Java (Indonésia) dividem as mesmas coordenadas latitudinais no mapa-múndi. Entre a cidade de Garanhuns em Pernambuco e Semarang na Ilha de Java, existe uma linha que se conecta. Uma linha que é traçada por dois pontos que percorrem uma reta de aproximadamente 16.000 quilómetros de distância, pontos que na vida de Daniel Lie nomeiam-se Iranlida Elias da Costa e Lie Liong Khing. Com mãe pernambucana e pai indonésio, o artista é o fruto desta interessante mistura tropical. Com traços indefinidos, ele é uma espécie rara e afrodisíaca que habita a cidade de São Paulo.   

São 16.000 quilómetros de distância entre suas raízes, com uma história marcada pelos anos de 1.600, época que representa - tanto na região de Pernambuco como na Ilha de Java - um momento de colonização Holandesa. É por esta carga histórica que começa a união subjetiva do que vem a ser a família Costa Lie. União que apresenta-se nesta exposição em cada objeto, natureza e imagem apropriada pelo artista. São memórias de um passado presente, de uma herança familiar, cultural e afetiva que vêm sendo mantida e visitada de geração em geração. 

Assim como o título da exposição leva o nome do pai do artista, a instalação Guilhermina Esperança remete ao nome da estação de metrô em que viveram suas avós, tanto a materna, Lindinalva (94 anos), quando a paterna, Eleonora (1924-1984). São lembranças metamorfoseadas em arte, a fim de sobreviver ao tempo e permanecerem atuais. Um procedimento que busca eternizar a efemeridade das coisas, nem que seja de forma simbólica.   

Uma busca aos costumes familiares de Costa Lie, através de riquezas naturais da terra natal de seus ancestrais e de suas tradições. O que faz da manga, por exemplo, um elemento icônico na produção do artista. Uma fruta de origem indiana, que foi introduzida através da colonização europeia no Brasil e na Indonésia, países que hoje apresentam uma das mais importantes áreas de cultivo de mangueirais. Fruta que, particularmente, esteve sempre presente na casa das avós, dos pais e mais recentemente na do artista com sua companheira Aline Tima.  

Desta forma, Guilhermina Esperança é uma instalação composta por elementos em constante transformação, amadurecimento e decomposição. Plantas guaimbes, cachos de banana, mangas, abacaxis, laranjas e limões são algumas das matérias inerentes ao tempo expostas. Frutas, que em sua maioria, encontram-se envelopadas por sacos plásticos em uma espécie de sarcófago translúcido. E é guiado por este constante paradigma entre morte e vida, que o artista ressuscita seus antepassados e homenageia seus familiares ao longo da exposição.  

A série de OPP - que pode ser tanto lido como Objeto Parede Pescoço e/ou Objeto Para Pensar -, apresenta objetos do artista que contém uma força simbólica e pessoal,  como, por exemplo, uma fotografia feita por seu pai, um maço de cigarro da indonésia e dentes de leite do próprio. Objetos afetivos que são combinados a elementos sintéticos (lona plástica, fita refletiva e corda) e matérias orgânicas (pedras, frutas e plantas). Uma combinação inusitada, porém capaz de equilibrar a carga estética, conceitual e subjetiva nos trabalhos aqui apresentados. 

Equilíbrio que tem como fio condutor a representação de uma  inha. Uma inha capaz de conectar Garanhuns à Semarang,  Iranlida Elias da Costa à Lie Liong Khing, Eleonora à Lindinalva, plantas guaimbes à cachos de banana, dentes de leite à cristais minerais e assim por diante... Uma linha viva e pulsante, que se move conforme a transformação das coisas e se prolonga com o passar do tempo. 

 

Junho, 2015