HIPÉRBOLES NEOBARROCAS . JULIANA MONACHESI

Capitonês e revestimentos de couro disformes são “modelados” em óleo sobre tela por Mariana Palma para sugerir corpos sinuosos que estão ocultos ao olhar do observador. Assimetria e desordem, como se sabe, são características do estilo barroco que têm por objetivo sugerir movimento e indeterminação às composições feitas de massas de luz e sombra buscando “profundezas insondáveis”, para falar com Heinrich Wölfflin. O espaço da composição fragmentária das telas de Mariana Palma é mais planar do que aquele sugerido na expressão de Wölfflin, mas não deixa de constituir uma sondagem das profundezas, uma vez que a dinâmica das pinturas reside no derramar, diluir, torcer, escorrer e contrair das estampas e outros padrões que a artista entretece.

 

Nas ciências sociais da América Latina, o barroco vem sendo pensado como condição de existência da cultura do continente. Deixar de lado o Barroco histórico –do qual a dissolução de regras clássicas para inclusão desordenada e descentralizada de uma riqueza inesgotável de motivos na arte pictórica viria facilmente em auxílio a uma leitura crítica da recente produção de Mariana Palma– para tomar os estudos culturais de nomes como Severo Sarduy (escritor cubano), Jesús Martín-Barbero (teórico da comunicação espanhol radicado na Colômbia), Néstor García Canclini (antropólogo argentino) e Amálio Pinheiro (teórico da mestiçagem cultural brasileiro) ajuda a pensar de um outro ponto de vista a arte latino-americana, entendida por esses autores como hipérbole barroca da natureza, ou como descontinuidade mestiça entre referências e materiais proliferantes, relações bastante mais pertinentes para olhar as novas pinturas, esculturas e aquarelas da artista.

 

Enovelada em um contexto cultural afeito às mesclas e combinações entre elementos díspares, não é de estranhar a capacidade de Mariana Palma para estabelecer relações complexas entre referências da pintura flamenga, da arquitetura barroca européia, da botânica, da exuberância de tecidos e padronagens de diversas procedências, do ladrilhado, da marchetaria, do drapejamento pictórico e assim por diante. Importa menos saber de onde partem –ou de onde a artista “recorta”– os fragmentos que inclui em seus trabalhos; interessa, sim, observar como a artista “cola” ou arremata os variados “pedaços” na criação de seu “mosaico mestiço” –para usar o conceito desenvolvido por Amálio Pinheiro–, uma vez que as “identidades” de cada elemento “original” desaparecem no jogo de forças extremado que ela põe em cena nas obras. Da coleção de referências costurada pela artista não resulta uma “unidade”: nada está ou permanece inteiro em suas pinturas e desenhos; o mosaico movente continua aberto, dobra-se sobre si e sobre o mundo, continua a se desdobrar nas obras seguintes.

 

Prova disso são as experiências tridimensionais que Mariana Palma apresenta pela primeira vez na presente exposição individual na galeria Triângulo. O desejo de materializar as formas desenhadas levou a artista a escancarar o erotismo barroco das suas aquarelas em objetos pintados e amolecidos por pedaços de tecido reais que escorrem e se aconchegam nas sinuosidades deste “corpo” entalhado em madeira. A textura das flores, das plumas e peles de animais entrecortados dos desenhos da artista, que usualmente estão amalgamados a chifres e adornos de pérolas, igualmente táteis, salta do plano do papel para articular no espaço da galeria algo semelhante ao que ocorre na pequena tela em que galhos de árvore parecem brotar de dentro de um casaco de pele. Não se trata de uma disputa entre natureza e cultura, mas de uma saudável convivência em eterno estado de crise.

 


 

Este texto foi escrito entre a convivência com as obras de Mariana Palma em conversas com a artista em seu ateliê e o convívio com as reflexões do professor Amálio Pinheiro nas aulas de pós-graduação em Comunicação e Semiótica na PUC-SP. Na falta de algum dos elementos desta tríade (obra, artista e mestre) o texto resultante seria uma versão piorada e irrelevante deste.