OLHAR DESACELERADO . ANGÉLICA DE MORAES

Mariana Palma cria uma pintura singular e poderosa. Daquelas raras que a gente bate o olho, tenta seguir adiante e não consegue. O olho é capturado para esse vórtice de cores e planos caleidoscópicos. Nunca mais vai ficar saciado de examinar as detalhadíssimas superfícies coloridas, que assumem com coragem e despudor a heresia contemporânea de realizar algo belo.

 

A beleza é uma ferramenta para a percepção. A artista acredita e gosta de ser gentil com o olhar dos outros, de conquistá-lo para olhar mais e melhor. Uma eficaz articulação de fragmentos estrutura sua linguagem pictórica, que age pelo contraste ou pela harmonia, seja com cores ou planos, texturas ou perspectivas. Assim, faz  o olhar ir e vir da epiderme ao último plano de tinta. Tudo tem presença própria e, em igual medida, soma-se a um conjunto.

 

Está claro que Mariana não tem paciência com precariedades cultivadas por cálculo ou despiste de carências técnicas. Tem radical persistência, isso sim, para buscar o domínio das ferramentas do ofício. Uma pintura sedutora, aliás, não significa uma pintura fácil. Mariana Palma enfrenta com inteligência o desafio da pintura a óleo pós-Matisse, o que não é pouca coisa. São marcantes suas telas de recortes de estampas, panejamentos de tecidos multicores, elementos que ganham congruência pela sutil afinação de cores.

 

O acúmulo não é um excesso mas um exercício de equilíbrio. A raiz barroca é nítida. O cromatismo certeiro denuncia convívio com a história da pintura e, em especial, com os mestres flamengos. As coisas vistas de muito perto denotam a raiz contemporânea da imagem, contaminada pelo close e o zoom da máquina fotográfica. A fragmentação aponta outra característica da contemporaneidade: a avalanche imagética e a impossibilidade de se ver a totalidade das coisas mas apenas um pouco de cada vez.

 

A nova série de trabalhos, de visualidade verticalizada, refina e renova uma prosaica técnica de decoração de papéis: a marmorização. Sinuosidades de tintas, obtidas pela flutuação de pigmentos na água, geram padrões que são aplicados e sobrepostos em faixas ritmadas no espaço. É um tributo à abstração informal, cheio de frescor e ausência de preconceitos de quem não crê no apartheid entre fine arts e artes aplicadas.

 

As aquarelas parecem acelerar o olhar. Capta-se a totalidade da imagem de um golpe, mas a estranheza do que é visto também exige exame acurado. Sínteses vegetais improváveis remetem à dualidade masculino/feminino, em combinações de carga erótica a lembrar a taxonomia botânica dos artistas viajantes, que representaram o Novo Mundo no século XVI. As relações afetivas da contemporaneidade, outro novo mundo, são férteis em hibridismos e avessos a classificações rígidas, parece apontar a bela série de trabalhos. Trata-se de uma exposição que afirma a consistência técnica e poética de uma pintora jovem que já conquistou protagonismo na cena atual.