OBJETOS DE CERTEZA, OBJETOS DE DÚVIDA . KIKI MAZZUCCHELLI

 

Do rigor na ciência

 

“... Naquele Império, a Arte da Cartografia atingiu tal Perfeição que o Mapa de uma só Província ocupava toda uma Cidade e o Mapa do Império toda uma Província. Com o tempo, estes Mapas Desmesurados não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o Tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele.”

 

[Suárez Miranda: Viajes de Varones Prudentes, livro IV, cap. XIV, Lérida, 1658.]

 

Borges, Jorge Luís. História universal da infâmia.

 

Entre as dezenas de instrumentos cuidadosamente dispostos sobre a mesa que ocupa o espaço central da galeria, um objeto em particular pode ser considerado como emblemático das questões que permeiam toda a série A arte de navegar. Trata-se de El horizonte adelante, El reflejo de una estrella atrás (Espelho de Horizonte), 2012, uma peça cuja delicada estrutura em bronze sustenta, de um lado, um espelho e do outro, um vidro não reflexivo, perfeitamente alinhados e simétricos. Aqui, Manuela Ribadeneira recria o sistema de espelhos reflexivos empregado nos sextantes, instrumentos utilizados para calcular o ângulo entre os astros e o horizonte, assim determinando o posicionamento dos navios no oceano. É sobretudo interessante notar a coincidência entre forma e simbolismo neste objeto único que é capaz de expressar plenamente o olhar retrospectivo e prospectivo que caracteriza a obra de Ribadeneira.  Assim como em trabalhos anteriores, esta série mobiliza referências históricas precisas a fim de produzir uma reflexão sobre o presente e sobre rumos futuros.

A arte de navegar é um projeto iniciado em 2011 para a Bienal do Mercosul, no qual temas centrais de sua obra como a noção de direito sobre um território e a transposição de sistemas de conhecimento europeus para as Américas em tempos coloniais são abordados especificamente em relação ao processo de colonização do Brasil pelos portugueses. A artista conta que, particularmente no caso de Portugal, a reivindicação da posse dos territórios ultramarinos fundamentava-se sobretudo nas descobertas científicas. Cita, como um dos mais fascinantes exemplos desta prática tipicamente portuguesa, a carta de Mestre João ao Rei D. Manuel de Portugal em 1500, na qual o autor relata a chegada da frota cabralina à costa brasileira1. Logo no início deste documento, Mestre João recorre a seus conhecimentos da ciência da cartografia a fim estabelecer a latitude local por meio de um astrolábio. Especialmente significativo é o fato que neste mesmo documento o desenho da constelação do Cruzeiro do Sul tenha sido apresentado pela primeira vez, passando a ser o principal ponto de referência astronômica para a navegação do hemisfério sul e constituindo-se em um novo paradigma para determinar nosso lugar no mundo.

Em sua extensa e abrangente pesquisa acerca da colonização das costas brasileiras, e particularmente da idéia da tomada de posse de um determinado território por meio da ciência, Ribadeneira examinou não apenas os relatos históricos como buscou compreender, na medida do possível, o mecanismo de funcionamento dos antigos instrumentos de navegação utilizados pelos colonizadores portugueses para orientá-los na travessia do Atlântico. Reuniu, diligentemente, uma variedade de publicações que incluem descrições e ilustrações detalhadas sobre esses objetos e visitou locais peculiares como o Museu Marítimo de Londres e a fábrica de equipamentos para submarinos da Marinha Britânica a fim de recolher informações e amostras. Todos esses elementos contribuíram para a criação de uma série de objetos que referenciam mais ou menos explicitamente os instrumentos originais.

Em alguns casos, como em El Arte de Navegar (2011), trabalho que possui o mesmo título da série, a relação com o instrumento original é mais evidente. Esta pequena peça em bronze, na forma do ponteiro de um antigo astrolábio, com uma pequena perfuração que permite que um foco de luz seja projetado em uma de suas abas, evoca vivamente a imagem deste instrumento ao mesmo tempo em que o transforma em objeto poético. De fato, este objeto não possui funcionalidade alguma, pois nele foram omitidos outros elementos necessários para determinar a navegação. Este apagamento remete, ainda, a uma certa imprecisão característica desses instrumentos. Pois, como demonstra o pequeno conto de Borges que abre este texto, a ciência só é capaz de produzir uma representação perfeita do mundo na medida em que coincide absolutamente com ele. Curiosamente, ao ser apresentado em São Paulo (ou Porto Alegre), este objeto igualmente escultórico, cuja forma o aproxima da produção tridimensional de artistas como Max Bill ou Franz Weissmann, passa a integrar um diálogo com a tradição construtiva da arte brasileira.

Em meio aos objetos que envolvem a reconstrução e a subversão do instrumento original, Ribadeneira inclui também alguns ready-mades que fazem referência a desenvolvimentos científicos posteriores. O enigmático e fascinante tubo de vidro curvado em cujo interior preenchido de um líquido transparente encontra-se uma esfera de bronze nos parece perfeitamente aceitável como objeto artístico, embora sua utilidade prática seja mais duvidosa. Mas, justamente este objeto frágil e belo é ainda hoje utilizado pela Marinha Britânica em seus submarinos em situações de emergência nas quais todos os modernos equipamentos eletrônicos de navegação param de funcionar. A artista simplesmente apropriou-se deste instrumento e batizou-o de When all else fails (2012).

Esses desvios poéticos aos quais o conjunto de A Arte de Navegar é submetido intensificam seu caráter misterioso. Somos tomados por um desejo instintivo de manipulá-los a fim de experimentar e desvendar seu propósito, que permanece inevitavelmente obscuro. Segundo Ribadeneira, seus objetos levantam as seguintes questões: Onde estou? Para onde vou? Como posso retornar a meu ponto de origem? Ou ainda: Como nos perdemos? Nesse deslocamento e entrelaçamento de sentidos, estas perguntas se tornam quase metafísicas. Mas, acima de tudo, a artista está interessada na “falta de certeza em toda a aparente certeza que os sistemas nos dão”. A astronomia, a cartografia e outros sistemas científicos são portanto invocados em seu trabalho para comentar sobre o período de enorme dúvida em que vivemos hoje, quando é extremamente difícil prever o que vai acontecer nos próximos anos ou acreditar em qualquer tipo de sistema (econômico, político, religioso).

Seu interesse pelos instrumentos científicos é também a base do outro conjunto de trabalhos que integra a mostra Objetos de certeza, objetos de dúvida. Desta vez, Ribadeneira parte de um episódio recente, no qual uma migalha derrubada acidentalmente por uma coruja dentro de um dos ventiladores do Grande Colisor de Hádrons (LHC), em Genebra, causou seu superaquecimento e interrompeu seu funcionamento por alguns dias. Para esta série inédita de trabalhos, a artista produziu dezenas de objetos moldados em bronze que conferem materialidade à uma imagem mental desta migalha. Sua forma orgânica e a maneira um tanto desordenada como estão dispostas no primeiro andar da galeria, evoca a idéia de caos em contraponto à ordem que reina no piso térreo. Mais uma vez, a exatidão da ciência é colocada em cheque: o acaso provoca o colapso de um dos mais sofisticados instrumentos científicos da atualidade. É ironicamente apropriado, portanto, que este trabalho esteja sendo apresentado pela primeira vez no Brasil, onde o nome popular da famosa partícula de Bóson-Higgs foi largamente traduzido pela mídia local como “Partícula de Deus”, a partir do inglês God particle, ou Partícula-Deus, aquela que supostamente daria origem à matéria.

 


 

1. Todas as citações atribuídas a artista foram recolhidas pela autora em outubro de 2012 em trocas de e-mails e visitas ao ateliê.