Nazareth
Pacheco

A BELEZA TÓXICA DO MINIMALISMO MERCURIAL DE NAZARETH PACHECO . JULIANA MONACHESI

Observando seu trabalho recente, me pego pensando em certas máximas do minimalismo: “Uma coisa depois da outra”, que Donald Judd advogava como princípio de ordenação para evitar a composição formal; “O que você vê é o que você vê”, famosa frase de Frank Stella para despistar a complexidade minimalista, enfatizando seu aspecto literal; e o “Não há como enquadrá-la, é preciso experimentá-la”, de Tony Smith, sobre a transgressão dos limites institucionais da arte e o renascimento do espectador.

 

Se formos seguir Hal Foster em sua identificação de duas sucessões principais que definem a neovanguarda dos anos 1960 aos nossos dias – a genealogia minimalista e a genealogia pop –, é na primeira que a obra de Nazareth encontrará seus interlocutores. Isso porque a aparente frieza de seus trabalhos e sua ausência de narratividade estão muito distantes da paixão pelo signo e do discurso do trauma que caracterizam a genealogia pop, mas, por outro lado, em absoluta sintonia com a subversão da representação, com a aposta na presença dos objetos da arte e com o jogo fenomenológico entre o corpo e a obra que delineiam a genealogia minimal.

 

Senão, vejamos. O corpo das obras que integram a presente mostra e/ou, por vezes, seu invólucro, é constituído de acrílico – produzido, recortado e finalizado industrialmente. Os elementos que não são de acrílico são todos serializados: bigornas de bronze, gametas de bronze e tranças, gotas de prata, cabides de bronze, fotografias. Até mesmo o material que protagoniza a exposição, e que poderia suscitar devaneios simbólicos, o mercúrio, adquire um estatuto industrial em série na forma como é apresentado. A disposição dos trabalhos, as soluções de display e, também, a ordenação interna de cada obra silenciam, se não anulam, os deslizamentos metafóricos. São pura presença, pura perplexidade.

 

Acontece que são formas e materiais para vivenciar: os prístinos pesos de balança, as bigornas interconectadas, a beleza tóxica do mercúrio, o fascínio da arara de roupas imaculada com seus cabides dourados vazios. Pura presença a gerar perplexidade pela resistência ao “significado”. Outros neovanguardistas desta genealogia costumam produzir o mesmo efeito: pense em obras recentes de Carlito Carvalhosa, Jac Leirner, Iran do Espírito Santo. Subvertem a representação e enfraquecem a lógica referencial dos objetos que utilizam ao os disporem um após o outro, em série. Os quatro artistas – Nazareth, Carlito, Jac, Iran – têm também suas estratégias para “contaminar” o referencial minimalista, como bons latino-americanos.

 

A contaminação promovida por Nazareth Pacheco no conjunto atual de obras é, a meu ver, a serialização de formas arcaicas. A escolha de ferramentas e dispositivos de design vernacular, ou primitivo, aponta para uma conexão entre o que se repete na velocidade pós-industrial do capitalismo tardio e o que se reitera paulatinamente na ordem do primordial. Nessa ruptura com a austeridade do minimalismo, a artista dá espaço à irrupção de memórias no contato com seus trabalhos. E será nesse intervalo de suspensão que cada visitante haverá de acessar o sentido da obra.