PRISMATIC . JORGE VILLACORTA

Plantada sobre sua mesa de trabalho em seu ateliê – como mostra a fotografia do convite da exposição PRISMATIC, na Casa Triângulo -, Pier Stockholm possui uma luminária cuja forma é muito estranha. Embora seja pequena, parece um OVNI de um filme de ficção científica dos anos 50, mas também assemelha-se às figuras super estilizadas que os designers dos primeiros games digitais criaram para os invasores espaciais de outras galáxias fictícias, digitais. Para mim, é o punctum da imagem (Tenho certeza que para outros também) e, além disso, um objeto esquisito, com suas linhas modernas e elegantes e sua superfície metálica, que o tornam um objeto escultórico notável. A luminária parece até mesmo capaz de se lançar no ar, por si própria, para além da superfície da mesa. Funciona como uma provocação afetiva ao design modernista e à imaginação moderna, um ícone que abrange a Vida e a Morte na Utopia, se é que isto pode ser sequer imaginado.

 

PRISMATIC é uma exposição que recorre a práticas estéticas contemporâneas para tentar traçar a natureza largamente não específica das relações de um indivíduo com o Zeitgeist (o espírito dos tempos) em todas as suas gamas de cores e em homenagem às explorações da forma e função no design como parte da utopia positiva e vanguardista exemplificada pela Bauhaus. Não há nenhuma nostalgia nisso, apenas regozijo, enquanto observamos Stockholm  aproximar-se levemente do Final da Vida: na medida em que ele investiga a psique – a sua própria psique – para construir no espaço, como num campo magnético alegórico, um estado de equilíbrio entre a vontade de vida impulsionada por Eros e o desejo de morte.

 

Desde a entrada, quando deparamo-nos com uma pequena instalação de chão com lápis coloridos que parecem ter sido evocados de uma impressão fotográfica em cores, até o vídeo em homenagem a não-emoção Godardiana, no mezanino do primeiro andar, Stockholm nos fornece pistas ao longo do caminho de modo muito sutil.

 

Não é nenhuma surpresa que ele tenha produzido uma exposição de arte capaz de reivindicar tanto Oskar Schlemmer , com suas coreografias para dançarinos que se tornam esculturas em movimento, girando e saltando no espaço, e Charly Garcia, lendário cantor de rock argentino devastado pelo tempo e pelas drogas, como padrinhos de uma noção de arte e vida a qual subscreve. O Ballet Triádico de Schlemmer é um dos primeiros exemplos de experimentação da fusão entre dança e escultura moderna e dizia que sua oficina de teatro na Bauhaus era “o ponto de encontro da metafísica”. Ali, também ministrou aulas de desenho de modelo vivo que o levaram a criar aulas sobre “O Homem”, em sua acepção universalista, em 1926-27: “[…] dizia que o homem, como um ser natural atravessando apressadamente o espaço e o tempo, é determinado por leis biológicas, mecânicas e cinéticas. Como parte da relação cosmológica entre o material e o espiritual, ele é capaz de produzir arte e de refletir sobre questões estéticas e éticas” (Bauhaus Archive Berlin – Museum of Design: The collection, Ed.  Berlin, 1999, p.66).

 

Lembramos das tentativas de racionalização do ensino de Schlemmer em todos os estágios, em sua aplicação dos princípios científicos que dominavam as perspectivas da escola, no trabalho de Stockholm em que aborda a discografia de Charly Garcia até o presente e cria uma ordem científica fictícia e uma estrutura hierárquica para apresentá-la. Implementa uma espécie de tabela didática para isolá-la do tempo. A cor está ausente, mas ainda assim a memória das palavras e da música de Garcia parecem suficientes para colori-la.

 

O interesse de Stockholm pela cor, pela estrutura e pelo desenho volumétrico da linha está presente nesta mostra. Sua proposta no campo do desenho contemporâneo é uma conquista plena e aperfeiçoada desde o início de seu processo artístico, por volta de 2000. Sua formação em arquitetura em Lima, Peru, certamente tem a ver com isso. Porém, mais tarde, ele também começou a encontrar maneiras de contornar a ideias estritamente conceituais, matemáticas, da linha e do plano para construir gradualmente uma série de alusões a fim de projetar algo diverso de um estado de distanciamento e um clima de impessoalidade. Uma vez que, francamente, ele tenha sempre tido a tendência de viver em na sua própria cabeça, o que se tornou sua preocupação principal foi deixar a mente – sua própria mente – deslocar-se em sua matriz contemporânea de armadilhas evitadas por substâncias químicas. Este tornou-se o horizonte do qual extraiu ao mesmo tempo a utopia, entendida como uma visão pura, na qual forma e função estão precisamente aliadas, com o sentimento e a liberdade de associação, e até mesmo com um certo grau de aleatoriedade, para criar um método de trabalho.

 

Isto também implicou na incorporação gradual, em seu processo de trabalho, de memórias e lembranças de caráter emocional, às vezes muito pessoais, que às vezes aparecem nos próprios trabalhos por meio da apropriação de imagens e esquemas de cores. Em 2002, seu processo torna-se caracterizado por intimações inesperadas do tempo e espaço, produzindo aquilo que fico tentado a chamar de “paisagens melancólicas”, que eram às vezes também “paisagens urbanas”. Estas sugeriam topografias impessoais e elegíacas na forma de desenhos arquitetônicos e, nos casos mais extremos, implicaram na fantasiosa porém edificante costura e montagem de um jardim de Prozac feito com diferentes tecidos para ser usado na cabeça. Com isso, a “paisagem melancólica” tornava-se um acessório portátil, especialmente através das fotografias que, muito inesperadamente, retratavam o estilo de vida do artista como um solitário que poderia ser um flâneur, propenso a vestir sua mente sobre sua cabeça.

 

Após uma década, sua vontade de lidar com a tríade visual da cor, estrutura e desenho da linha volumétrica não esmoreceu. Seu gosto pela exploração o levou a investigar o espaço e o tempo culturalmente, em busca de novas maneiras de questionar como podemos envolver o pensamento e a emoção no fazer artístico. PRISMATIC incorpora seu mais novo modo de abordar o Final da Vida por meio de uma visão peculiar sobre o que podem ser os símbolos necessários para transpor o ciclo da vida humana, se tivermos que descobri-lo visualmente de acordo com essa tríade.

 

A complementação de opostos também aparece no final. O preto espalha-se vigorosamente porém categoricamente com a máscara que podemos escolher usar em nosso sobe e desce, e o branco se revela, com o Pantone anexado, mostrando uma variedade de tons que desperta nosso sentido de encantamento.

 

E então Pier Stockholm declara um ponto final.

 

No final há o começo. A fotografia em cores plenas do solitário no ateliê vestindo uma máscara em cores primárias interrompe tudo. De supetão.