AINDA ÁGUA, ENFIM ÁGUA . DOUGLAS DE FREITAS

O trabalho de Sandra Cinto propõe um constante exercício de reconstrução, desejo de reconstrução, ou ainda, tentativa de reconstrução das ruínas do mundo contemporâneo. A artista lança mão de uma cartela de elementos simbólicos, escadas, pontes, abismos, candelabros, velas e brinquedos, em fotografias, objetos, desenhos e instalações, para criar um ambiente onírico, coabitado por melancolia e esperança.  

 

A Casa das Fontes é resultado da investigação realizada pela artista nos últimos meses sobre a arquitetura bandeirista e seu uso. Na instalação, fontes d’água funcionais ocupam os três cômodos principais da Casa do Sertanista, para onde foi especialmente concebida. Fundidas em concreto, as fontes estabelecem um contraponto entre a cidade contemporânea e a solidez da arquitetura bandeirista de taipa-de-pilão. Deste modo, Sandra realiza um deslocamento para o espaço privado de elementos públicos e íntimos, em menção ao uso do espaço no século XVII, onde a casa e seu entorno reuniam uma série de funções, hoje inconcebíveis para um espaço residencial, mas que por seu isolamento em relação ao centro urbano, ali aconteciam. A brutalidade do concreto, que a artista deixa de esconder, afirma a presença das peças no mundo; seu peso visual não permite a leveza incorpórea do mundo dos sonhos, por mais que seu deslocamento do espaço público para o privado  e suas formas,  apontem para isso.

 

As fontes retomam os elementos simbólicos da obra de Sandra Cinto. Se em trabalhos anteriores eles aparecem renovados, alegoria de uma utopia almejada, nas fontes eles se colocam entre ser monumento público e lápides sepulcrais dessas utopias, uma constatação de suas ruínas. A água que circula na fonte deixa marcas sobre ela e acelera seu desgaste. Ao mesmo tempo, uma fonte sempre remete ao imaginário de ‘fonte dos desejos’, onde ao jogar uma moeda é concedido o direito a um pedido e assim, no embate amplamente discutido no trabalho da artista, a constatação de um mundo em ruínas se apresenta com a possibilidade de dias melhores, em um persistente exercício de renovar as esperanças.

 

Em ciclo constante, as fontes também não deixam de apontar para o tempo que passa. Tudo o que é cíclico assinala uma marcação de tempo, seja a volta da terra em seu eixo, ou o movimento das marés estabelecido por sua relação com o sol e a lua. No entanto, essa marcação do ciclo das águas nas fontes é abstrata. É possível notar o constante passar do tempo, mas não contá-lo. Ao seu modo, a artista evidencia o deslocamento de tempo que presenciamos ao entrar na casa.

 

Com o pé direito mais baixo, e fora do eixo principal da casa formado pelos três cômodos onde as fontes estão instaladas, a última sala expositiva recebe uma série de fragmentos de fontes que não deram certo, quebraram ou não tinham condições técnicas para serem usadas. As peças foram deslocadas e posicionadas do modo em que se encontravam na fábrica que produziu os demais trabalhos da instalação. Estes fragmentos são testemunhos da falha, possibilidade contida em toda tentativa. São registros de histórias que nunca se consolidaram.

 

Nos últimos sete anos, a produção da artista se desdobrou em uma reflexão sobre a água, na calmaria de um horizonte marítimo ou em um mar revolto. A água é também elemento fundamental na história da arquitetura bandeirista, onde a localização das construções é sempre próxima aos rios, caminhos de deslocamento na cidade antiga. Se nos desenhos da artista a água se solidifica como montanhas1, na instalação ela se apresenta em toda a sua fluidez.

 

Em A Casa das fontes a água em si é o único outro elemento usado além do concreto, e se opõe a sua secura. Não fossem suas características físicas - ser insípida, incolor e inodora - se faria mais presente que o próprio concreto. Mesmo contida pelas fontes, é ela que preenche o espaço da casa, de maneira delicada, com o som do seu constante correr. Assim, a água continua a questão do trabalho de Sandra Cinto, não mais a sua representação, mas enfim a água.

 


 

1 Referência ao poema de João Cabral de Melo Neto, Imitação da água, que norteia a última grande exposição de mesmo nome realizada pela artista em São Paulo, no instituto Tomie Ohtake, em 2010.