SANDRA CINTO . LISETTE LAGNADO

Sandra Cinto irrompeu na paisagem contemporânea com uma representação anacrônica do espaço celestial, de colorações serenas e atmosferas noturnas. De início, parecia reivindicar um lugar para uma pintura complacente do mundo. Mas a enorme mansidão dos quadros, paradoxalmente a seu caráter humilde, se impunha como força incontornável. Aos poucos, o tom foi declinando dos azuis e cinzas, e o rubor intempestivo das nuvens bem poderia aludir as ondas de um oceano revolto, índice do temor frente à incomensurabilidade da Natureza – tema tratado mais recentemente na sua instalação para a Capela do Morumbi, transformada em grande embarcação alegórica dotada de velas brancas de ponta cabeça.

Com esse desvio, a artista ganha complexidade ao sugerir que o espaço ilimitado não está apenas fora do sujeito. Sandra Cinto direciona o olhar para a metáfora do céu interno da remissão, dando-lhe o corpo que lhe faltava no plano bidimensional. Então, no refluxo presumível, os céus começam a caber dentro de pequenas caixas (destrancadas), armários (entreabertos) ou retábulos de madeira nova e clara – todo um mobiliário que evoca vias (bloqueadas) de passagem de um a dimensão para outra, acesso possível apenas no imaginário fantástico. A artista vai recorrer ao estilo onírico de Magritte, não mais para extrair-lhe seus enígmas poéticos, mas em busca do valor simbólico da imagem: a gaiola, lâmpadas acessas em pleno dia, um morango ou uma maçã no firmamento da história da arte. A configuração sensual (e feminina) do fruto – exuberante e desproporcional – reluz tal um "astro" no centro de seus céus.

Coerente com o vocabulário do sublime, Sandra Cinto assimila a luz em suas esculturas. Desse momento em diante, o trabalho trilharia uma investigação mais livre. Um lavrado de traço fino e cuidadoso desenha florestas povoados de formas longilíneas, escadas, troncos, lágrimas, nuvens, gaivotas, lustres e velas acessas. O etéreo, que emanava da matéria rala e embaraçada dos céus metafísicos, ganha um aspecto palpável com a incrustação na altura do abdômen da parede, de uma flauta modificada e fundida em bronze, ao mesmo tempo afirmativa e "doce" (no sentido literal e figurado). O culto às formas em suspensão tem no ângulo reto, a tensão necessária para fazer frente à quase disolução das linhas.

Para esta exposição individual, a artista criou cinco "ambientes". Embora cada peça se justifique de forma autônoma, há uma linha narrativa articulando uma unidade rítmica ao conjunto.

Nuvens e águas estão presentes, porém não se pode distinguir suas fronteiras – céu e oceano plasmados. Algumas ilhotas, no entanto, conseguem emergir no horizonte indistinto de montanhas e ondulações pintadas. A artista continua explorando as profundezas da paisagem. Um de seus objetivos se aplica a desenhar as camadas que constituem a parte submersa da ilha. Esse procedimento de "olhar através", como se membrana que reveste o mundo fosse transparente, é análogo ao tema de suas fotografias: são apresentados dois retratos em negativo da artista dormindo, cuja rede subcutânea de veias luminosas remete a imagens extraídas de uma lição de anatomia. Vê-se que a própria palavra "ilhota" permite a aproximação de sentidos orgânicos, entre o estudo de transformação do globo terrestre e do corpo humano, podendo conotar, simultaneamente, "pequena ilha" e "grupo de células em certos órgãos".

Seguindo essa lógica do "olhar através", compreende-se a razão pela qual o vidro prestou-se como suporte. Duchamp colocou em xeque o problema da pintura [Grande Vidro (1915-1923)]. Sob o pseudônimo de Rrose Sélavy, fez o readymade Fresh Window (1920), cuja janela de moldura branca está evocada por Sandra Cinto na apropriação da arquitetura da galeria. Sua instalação nos faz atravessar o espelho que dividia o real da representação (do objeto e da arte) e celebrar o desejo de entrar na matéria cinza da pintura.

O vidro, uma vez partido, torna-se perigoso. Por isso, a ausência da figura humana na linguagem de Cinto é um dado a ser ressaltado. O indivíduo aparece somente pelo viés da fotografia onde a técnica se põe a serviço do auto-retrato – gênero que investiga o si mesmo e deste depreende qualidades tanto físicas como psicológicas. De resto, os espaços internos de seus desenhos, pinturas e esculturas são lugares desabitados, até mesmo inóspitos. Sua atmosfera provém de um vazio circundante que nos toma logo na entrada, diante de um cavalo de carrossel. Em fibra de vidro, recoberto de tinta branca esmaltada, ele logo se diferencia da peça Carousel de Bruce Nauman (1988), feita em aço e alumínio. O brinquedo se sustenta sozinho, sem os seus pares, congelado num movimento em suspensão, uma viga vertical atravessada do teto ao chão. Tem um aspecto excessivamente brilhante que delata o frescor de sua fabricação. Pode-se até encontrar alguma ironia em transformar o espaço da galeria em parque de diversões, já que o cavalo está estrategicamente posto como observador de uma paisagem. Além do cavalo de carrossel, um balanço e uma cama são também introduzidos em outras instalações. Carregam com dignidade o explendor de sua carência embora sofram todos de uma gélida melancolia. Estreita demais para acolher um corpo, a cama, ao invés de unir dois abismos, expressa o sonho da totalidade. Mas, em todos esses assentos que seriam de descanso e de prazer jaz um deserto humano. Sandra Cinto situa-se dentro de uma linhagem de artistas que trata da questão da falta de contato físico na sociedade contemporânea. Envolta de religiosidade e dedicação, insulfa uma moral existencialista em seu ofício. Sua questão subjacente não é de cunho formal ("como e o quê pintar hoje"), mas, sim, constitutiva de uma subjetividade: "qual é o ouro do artista?". Profissão de fé.