A PINTURA ROUBADA . ADRIANO PEDROSA

Objetos cotidianos transformados em relicários pintados com precisão direta e representados com grandeaur simbolista: as pinturas de Valdirlei Dias Nunes são irresistíveis; você não apenas quer analisá-las de perto, mas deslizar os dedos sobre suas superfícies sedutoras. Sendo pequenas, é possível que você queira roubar uma, para pendurá-la m seu quarto ou simplesmente levá-la consigo onde quer que vá. Há dez anos Dias Nunes vem construindo com discrição uma trajetória singular e sólida, seguida de perto por um reduzido porém dedicado número de aficionados. Críticos e curadores brasileiros tem dificuldade em prontamente consumir ou contextualizar historicamente seu trabalho – talvez porque, embora complexo e coerente, ele se distinga e se afaste das grandes tendências no país e no globo. Pode-se pensar em Edgard de Souza e no falecido Leonilson como possíveis, mas distantes parentes brasileiros (com efeito, os três artistas baseados em São Paulo foram colegas e dividiam a mesma resistência a ser categorizados em gêneros ou movimentos, brasileiros ou estrangeiros).

A superfície das pinturas de Dias Nunes é bem acabada e achatada, sua composição e estrutura invariavelmente simétricas: um único objeto posicionado contra um fundo preto ou branco sólido, na seção central inferior da tela geralmente pequena. Após o primeiro encontro com o trabalho, e talvez alguns dias após você ter roubado uma das pinturas de Dias Nunes de uma exposição ou da casa de um colecionador (as pinturas são bem pequenas e a maioria delas o bastante para caber folgadamente numa bolsa de tamanho médio), você começará a decifrar alguns de seus enigmas. Entre eles o fato de que uma pequena natureza-morta convertida em escultura metafísica e simbolista pode ser objetualizada e, por sua vez, transformada pictoricamente mediante o hábil uso de finos pincéis. Uma flor, um livro, um sino, uma corda, uma caveira, uma coroa, uma cruz, um anel, um instrumento musical, um jarro, um vaso, uma garrafa, pérolas ou globos, caixas ou mesas, altares ou pedestais – esses objetos finamente executados asa de uma solidão singular solene, belos porém melancólicos. No início dos anos 90, atingido como muitos de nós pela perda de amigos próximos para a AIDS, Dias Nunes começou a referir-se, inevitavelmente, de forma dramática e oblíqua, à crise pessoal e estética que a epidemia representava, por meio de seu repertório precioso e delicado de objetos pintados. De repente, a representação teatral de objetos pintados passou a assumir tons trágicos. Você poderia então começar a perceber que seu relicário pintado teria devagar mas inexoravelmente crescido e derramado significados muito além de sua superfície luxuriante e bem-acabada, revelando uma poderosa contaminação de si próprio e de outras pinturas, seus belos objetos e suas representações. Seu objeto secreto e roubado estava pleno de uma doçura amarga.

Nos últimos anos, os elementos formais e figurativos do trabalho de Dias Nunes forma reduzidos, expandindo e tornando mais complexo seu campo de ação pictórica. Mas ainda, suas pinturas finalmente se tornaram presas da vocação inevitável da pintura – falar sobre pintura de forma reflexiva. Seu realismo e representação sem rodeios agora jogam com a abstração geométrica e minimalismo, tomando como objeto a representação de finas e sutis linhas, barras, listras, caixas, cubos, pedestais e quadrados, pintados em branco, ouro, marrom, contra um refinado pano de fundo branco. As pinturas também crescem um pouco. Este retorno a temas e motivos do alto modernismo ocorre com uma certa ironia, porém é também sincero e genuíno a seu modo. Sob uma contínua precariedade e precisão, atrás de superfícies elaboradamente construídas e hipercultivadas, muito além de seu denso vazio, essas pinturas recentes falam de pintura mediante meios e formas muito peculiares: entre eles, uma oscilação irresoluta entre abstração e figuração, a impossível geometria de esculturas pintadas, um jogo complexo entre espaços intermediários de planos pictóricos, profundidade de campo e uma dura perspectiva. Elas conservaram também a qualidade dos primeiros relicários pintados, mas de forma mais tênue. Por esta razão, as pinturas recentes de Valdirlei Dias Nunes poderiam ser contrapostas àquelas de outro pintor de abstrações místicas – Piet Mondrian.

Sua pintura roubada ainda não revelou todo o seu mistério e maestria.