VALDIRLEI DIAS NUNES . KIKI MAZZUCCHELLI

Com uma trajetória de quase três décadas, Valdirlei Dias Nunes é um artista singular entre seus colegas de geração. Nascido no interior do Paraná, formou-se em farmácia e bioquímica antes de se mudar para São Paulo, no início da década de 90, período no qual começou a participar de exposições em galerias e museus. Suas primeiras pinturas, embora mais decididamente figurativas que sua produção atual, já guardavam alguns traços distintos que iriam se acentuar nos anos seguintes; entre eles a delicadeza e a precisão na execução, a paleta quase que exclusivamente restrita aos tons de preto, branco e ocre, e uma composição na qual o fundo monocromático ocupa grande parte da tela.

Invariavelmente executados em pequenos formatos e apresentando imagens que privilegiam um certo simbolismo misterioso em detrimento de uma narrativa reconhecível, esses trabalhos parecem dialogar tanto com a tradição da pintura metafísica inaugurada por De Chirico e de seus admiradores surrealistas quanto a produção pictórica de Leonilson, cuja carreira foi interrompida precocemente na época em que Nunes iniciava a sua. A madeira, material que o artista irá retratar obsessivamente ao longo de sua obra e que mais tarde se converterá em matéria-prima de suas esculturas, já aparece nessas pequenas pinturas na forma de troncos ou galhos que brotam de objetos mundanos e religiosos como os jarros e crucifixos, ou como mobiliário, no caso dos caixotes que lembram banquetas ou bases de esculturas.

Em uma conversa recente durante as preparações para a atual exposição, o artista mencionou que nunca teve interesse em trazer para o seu trabalho assuntos relacionados à sua formação acadêmica anterior. No entanto, creio que não seria disparatado dizer que o rigor e a disciplina comumente associados à atividade científica possuem uma importância decisiva no modo como sua obra se desenvolveu nos últimos dez anos. Gradualmente e, particularmente a partir do início da década de 2000, Nunes passa a reproduzir cada vez mais meticulosamente a superfície dos materiais, ao mesmo tempo em que as figuras que habitam suas composições se tornam mais simplificadas e ortogonais, invariavelmente contidas na parte inferior da tela contra um fundo amplo que as isola e quase que confundindo-se com formas abstratas. É a partir daí que seu diálogo com a história da arte passa a se voltar notadamente para a tradição construtiva da arte brasileira, embora, ao contrário dos protagonistas desta linhagem artística, nunca tenha abandonado a figuração.

Para além de uma discussão acerca de legados históricos pontuais, o foco principal da obra de Nunes parece ser a própria natureza da representação. Na medida em que seu trabalho converge para uma certa simplificação pictórica que se desenvolve simultaneamente ao tratamento mais elaborado da superfície dos materiais retratados, o artista passa a explorar cada vez mais as possibilidades escultóricas da pintura. Dois casos exemplares são a série Sem título (Estrutura de madeira), de 2008, que consiste de caixotes de diversos formatos construídos com sarrafos de MDF cuja superfície é cuidadosamente pintada de modo a simular o veio da madeira, e a série de Sem título (Relevos), de 2011, obras de parede nas quais a superfície branca do quadro é atravessada diagonalmente por barras de latão estreitas que se projetam para além dos limites do suporte. Ambas as séries partem de materiais inicialmente explorados dentro de uma situação pictórica, nomeadamente a madeira e o ouro, que num segundo momento adquirem materialidade palpável como objetos escultóricos. Ao mesmo tempo, o caráter ilusionista com que o artista reproduz os materiais na pintura se repete nas séries tridimensionais, com a camuflagem da textura aplicada sobre o MDF e o uso do latão no lugar do metal mais valioso. Em sua ambigüidade oscilante, esse jogo de ilusionismo que transita entre a pintura e a escultura, além de retomar de certa forma uma discussão moderna acerca do problema da representação e a consequente busca por uma linguagem abstrata, traz ainda um questionamento sobre como o valor é atribuído aos objetos e materiais e, em última instância, à própria arte.

Nas duas principais séries de trabalhos apresentadas nesta exposição, Nunes aprofunda seu interesse em explorar a natureza da pintura e as qualidades físicas e associações simbólicas dos materiais representados. Um primeiro grupo é formado por pequenas e médias pinturas de fundo branco ou preto cuja superfície é atravessada por uma grade de delicadas linhas amarelas ou douradas executadas com a precisão característica dos trabalhos recentes. A geometria rigorosa desses grids, que parecem flutuar sobre a superfície da tela como uma membrana, demarca o limite entre a interioridade da pintura e seu entorno, lugar do espectador. Porém, tanto nas pinturas negras quanto nas brancas, a trama geométrica é interrompida por recortes ou pelo avanço transversal do fundo monocromático sobre a figura, e somos lançados mais uma vez para dentro do campo da representação delimitado pela tela.

Num movimento quase oposto, o grupo de novos relevos de parede apresentados aqui o artista constrói pinturas-objetos que projetam o olhar para o espaço que circunda os limites da tela. Assim como nos relevos atravessados pelas barras de latão, cria uma espécie de simulacros de pintura construídos com chapas de MDF laqueado que sugerem monocromos brancos. Cada um desses volumes é ladeado parcialmente por uma moldura em madeira crua que parece ter brotado incontrolavelmente e se estendido para além do perímetro do quadro, sugerindo a potencial continuidade da linha ad infinitum e, de certa forma, problematizando o papel da moldura como mecanismo convencional de circunscrição do espaço de representação ao transformar as próprias molduras em representações de si mesmas.

No início desse texto, afirmei que Valdirlei Dias Nunes ocupa um lugar singular entre seus contemporâneos. Digo isso não apenas por ele ser um autodidata, mas ao olhar novamente para o desenvolvimento de sua obra ao longo dos anos, me dei conta também de que é um artista que trabalha quase que silenciosamente e num tempo (estendido) próprio, perseguindo os problemas suscitados pela prática e pelo confronto com os materiais de forma invejavelmente obstinada. Os trabalhos resultantes possuem uma qualidade preciosa; são objetos de desejo quase como pequenas jóias, mesmo quando emulam materiais banais. Nesse sentido, há um elemento quase fetichista que perpassa seu corpo de trabalhos, mas de um fetichismo quase ancestral no qual a divindade é confundida com o material. Mas este seria um assunto suficiente para toda uma outra reflexão sobre o trabalho do artista. Termino portanto com uma citação do ensaio Surrealism: Fetichism’s Job de Dawn Ades, que pode servir para iluminar a trajetória do artista desde suas primeiras incursões na pintura e seu flerte com a linguagem pictórica do Surrealismo até seu atual interesse na subversão de valores nos campos da arte e da representação:

“A palavra ‘fetichismo’, de origens obscuras e etimologia controversa, penetrou os discursos racionalistas do Iluminismo europeu; conotando a sobrevalorização e o deslocamento, sua função era sinalizar o erro, o excesso, a diferença e o desvio. Talvez um dos principais fantasmas do sonho da razão, ajudou a estruturar e reforçar as distinções entre o racional e o irracional, o civilizado e o primitivo, o normal e o anormal, o natural e o artificial. Portanto, a adoção do termo sucessivamente por Marx e pelos psicólogos do século XIX, para referir-se às formas irracionais de valorização dentro de sua própria sociedade, tinha um quê de satírico. No Surrealismo, entretanto, há uma mudança de rumo. Tendo servido para afirmar a impotência da mente e do espírito para agir racionalmente, o fetichismo iria intervir na subversão Surrealista de valores utilitários e positivistas ou, como colocou Carl Einstein, ‘alterar as hierarquias dos valores do real’.”