HORIZONTE VIAJANTE . CAUÊ ALVES

Não faz muito tempo, os cartazes nas fachadas de cinemas, teatros e salas de espetáculos, eram pintados à mão. Ao contrário da padronização dos cartazes executados com programas de design gráfico e photoshop, cada sala de cinema fazia a sua versão em pintura. Eram invenções genuínas e viajantes que hoje parecem se opor à mesmice da indústria cultural. Havia algo de primitivo e de pop nesses cartazes, frutos de pinturas sinceras e despretensiosas.

 

Sem qualquer nostalgia, Vania Mignone recorre à visualidade desses cartazes antigos. É como se a sua pintura composta por quatro placas de compensado avermelhada – com as palavras “o grito” e,  grafado ao contrário e espelhado, “o eco” –  ilustrasse um filme imaginário. Apesar do título estridente, a pintura é silenciosa e, de fato, reverbera na memória do espectador como se já fizesse parte de nosso repertório visual. O personagem de olhos fechados, refletindo num movimento introspectivo e os pássaros sobre sua cabeça acentuam o tom onírico de um fragmento de narrativa.

 

Algo semelhante se passa na pintura espelhada que anuncia “sessão 19h,  sábado, as gêmeas”. A presença de letreiros que marcam o dia e horário reforça a ligação com a tipografia limpa, sem serifa, e improvisada de alguns cartazes. Mas Vania Mignone está longe de ser uma pintora ingênua. Formada em artes e publicidade, em sua trajetória travou diálogos com a poesia visual e a tradição concretista, o que a afasta do aspecto pueril de muitos cartazes tradicionais.

 

Há alguma proximidade de Vania Mignone com o repertório pop, tal como os letreiros comerciais, kitsch e irreais exaltados por Robert Venturi em Apredendo com Las Vegas. A sua série de gravuras pintadas revela paisagens do interior paulista vistas do ponto de vista do carro. As placas das rodovias como “Desvio por Paulínia” ou letreiros tridimensionais que anunciam a chegada a alguma cidade, como “Lins”, evidenciam o percurso pelas estradas, e a visão através do para-brisa do automóvel. As pinturas em que o horizonte está sempre se deslocando, mesclam algo de uma espontaneidade popular com o planejamento cuidadoso.

 

Os trabalhos de Vania Mignone são permeados por recortes, colagens e dobraduras. A goiva é com frequência aplicada diretamente sobre o papel para buscar uma camada branca no fundo. Nas xilogravuras não há um desenho para cada madeira ou uma madeira para cada cor.  Além disso, a artista contraria a cartilha tradicional ao imprimir com tinta acrílica em vez das tintas próprias para impressão. O suporte é de papel garimpado em livros de sebos, geralmente de impressões em couché da Taschen Books. Propositadamente as pinturas carregam ondulações, brilhos e as vezes resquícios das impressões originais. Seus trabalhos nunca partem de imagens fotográficas, nem as usam como referência e, apesar da crueza da técnica, não perdem a delicadeza.

 

Na pequena série de pinturas e colagens vermelhas, os movimentos dos personagens são claramente encenados. Aqui o parentesco com o universo das histórias em quadrinhos é evidente. Mesmo assim, a artista não caracteriza completamente seus personagens, tudo se passa com se eles não pertencessem a época alguma e vivessem num tempo suspenso. Há certo ar dissimulado neles. Mesmo quando não há personagens, como na série branca do “palco-quarto”, existe uma mise-en-scène, uma artificialidade e uma discussão da representação.

 

Vania Mignone possui um estilo identificável não porque ela tenha um vocabulário pré-definido, mas por possuir um modo de fazer que, mesmo mudando a cada nova mostra, guarda um jeito próprio. Se nas paisagem das estradas há elementos gravados que se repetem, aos poucos percebemos, a partir da inscrição em uma de suas pinturas, que não somos nós que passeamos pelo paisagem, mas é o “horizonte viajante”. Um horizonte em aberto, indefinido, que chegará a nós pelas imagens do cinema ou pelo movimento nas estradas.

 

Cauê Alves