ENTRE IMAGENS . FELIPE SCOVINO

A obra de Vânia Mignone insere-se dentro de uma cena muito cara à história da arte contemporânea: a autonomia do desenho – deixando de ser garatuja, projeto ou algo “menor” - e o quanto ele invade, reposiciona- -se e é incorporado a um estado muito particular, e como, portanto, esse repertório o posiciona com uma velocidade e um arrojo que são particularmente difíceis de serem conciliados. Suas obras possuem a velocidade de uma história sequencial, de um cartaz ou dos outdoors. São traços velozes, sujos na medida certa e cuja literalidade está em constante escape. Não necessariamente compreendemos aquela imagem e, mais ainda, nem sempre imagem e texto se adequam. É o dado do estranhamento que rapidamente desconecta as obras do que poderíamos chamar de “uma atmosfera pop e urbana”. São figuras às vezes solitárias; em outros momentos nos deparamos como voyeurs invadindo um ambiente doméstico sem sermos convidados e em outros casos, com essa mesma atmosfera, os personagens não dão a mínima para essa invasão. É impressionante como em poucas linhas e em um espaço relativamente pequeno, a obra nos prende com tanta atenção. Seja nos olhos dos personagens ou na (vã) tentativa de se compreender aquela paisagem. Sua obra nos empurra para uma zona difícil de ser localizada. Arrisco-me a dizer que ela pretensamente se situa entre o silêncio e o (largo) intervalo entre a espera e o esquecimento. Um território preenchido pelo indício de que algo acabou de acontecer por ali ou há muito é preenchido apenas por memórias. São situações imprecisas, assim como é incerto chamar de pintura ou fotografia o trabalho de Mignone. São imagens de todo e nenhum lugar ao mesmo tempo.

 

Ao contrário de um certo “repertório contemporâneo da pintura”, Mignone não escolhe a espetacularização ou uma aparição da imagem com uma contundência enorme e plena mas nos torna visível um trabalho que nada contra o modo como as coisas estão caminhando. Afirmo esse ponto porque muitas vezes estamos diante de ações banais (uma menina ouvindo música com seus headphones, um pássaro no lago ou um homem, mas que de forma alguma banalizam a imagem. Essa argumentação possibilita a razão pela escolha do título desse ensaio, isto é, o quanto a imagem construída pela artista transcende o suporte da bidimensionalidade e evoca uma imagem em trânsito ou uma obra que pode ser articulada com outras instâncias produtoras de imagem, mais destacadamente o cinema.

 

Suas obras podem corresponder ao frame de um filme, mas ao mesmo tempo perceberíamos que eles só poderiam pertencer a certa qualidade cinematográfica, como por exemplo a de um filme de David Lynch, no qual a quebra de uma narrativa formal e a experiência de tempo é a todo instante reelaborada. Há essa negociação na obra de Mignone: em um primeiro momento, as referências podem surgir facilmente, mas não necessariamente elas permanecem por um longo período, porque logo se confundem. As obras nos questionam sobre que lugar ou paisagem é aquela que está diante de nós. Há uma espécie de mistério a ser decifrado.

 

[Felipe Scovino, março 2012]