VÂNIA MIGNONE . AGNALDO FARIAS

Sou um cacto com folhas de silêncio

Cassiano Ricardo

  

A artista retorna com os seus silêncios. Suas pinturas, que nessa exposição variam de formatos maiores até soluções concentradas, mais uma vez estampam imagens poderosas de solidão e descontinuidade e que se referem ao mundo todo, das paisagens desoladas até cenas extraídas do cotidiano, da ordem ordinária das casas, com seus ambientes e arranjos previsíveis. Mas diversamente do interior das nossas próprias casas, do abrigo que construímos e que povoamos com mobílias, plantas, animais e outras promessas de sossego, as imagens de Vânia Mignone nos revela um outro ângulo disso tudo. É como se ao contrário do que desejaríamos, inadvertidamente, nosso dia-a-dia, nosso mundinho fosse o alvo de um fosso que nós mesmos, com nosso desajeito e inabilidade em lidar com tudo, perseveramos em construir diariamente. Um fosso que mais e mais nos separa dos objetos, dos outros, deixando-nos a sós diante de uma vida opaca. Um universo no qual as palavras, flutuando sobre nós como nuvens carregadas, perderam a transparência, não jazem dentro da gente como substância intangível.

 

E o que dizer das palavras que co-protagonizam essas pinturas de Vânia Mignone, que nelas adquirem presença e espessura? Transformaram-se, junto com outros signos, números, num emblema, num possível desmascaramento das situações em que nos enredamos e que não mais obtemos encontrar a saída? Seria isso mesmo ou outra coisa ainda? Seja como for, porque são poucas e porque se limitam à simplicidade de datas e substantivos e porque são sempre grafadas em linha grossas, elas acabam por ter a força de uma poesia, um enunciado reduzido ao essencial e que ao invés de ser lançado sobre uma folha de papel em branco é inscrito no espaço plástico, organizado entre as coisas, sobre elas, entre elas, tão concreto quanto uma estrada, uma árvore, uma sala de estar, três vasos justapostos sobre uma mesa, dois cachorros e um homem, uma mulher acocorada no chão como se estivesse a espera de algo.

 

E porque são palavras, e em que pese a dimensão plástica que a artista confere a elas, são coisas para serem lidas, ou seja, ouvímo-las interiormente como um som que revebera dentro de um poço. Por outro lado estão ali fora, como a enfatizar o fato tão nosso conhecido, de que algumas palavras teimam em não desaparecer sob a forma de ecos; não se deixam absorver pelos tijolos das paredes, pela madeira do chão ou tragados pelos poros macios da nossa pele. Não, algumas palavras sobram entre nós, perduram como certos ressentimentos que se tatuam às nossas peles, como cicatrizes tão vivas que não nos deixam esquecer, como os rancores discretos que só se fazem notar pelo modo com que as bocas fechadas mastigam durante o almoço. 

 

Tão secas e despojadas, ao menos em sua aparência imediata as pinturas/poesias visuais de Vânia Mignone soam ser não tanto a aplicação de tinta sobre uma superfície, um processo de adição, mas seu escavamento, ação típica da xilogravura, técnica que a artista frequentou. As figuras parecem resultar de um exercício difícil, do atrito com um material como a madeira que nada tem de dócil, cuja aspereza de suas fibras reage a passagem do instrumento empunhado pela artista como que continuamente o obrigando a desviar-se da rota inicialmente premeditada. Os contornos, as linhas traçadas são como que garatujadas, como se sua mão tivesse sua habilidade em estado oscilante, semi-paralisada. Os volumes como quê são achatados pelo peso da tinta. E mesmo os planos coloridos, e diga-se passagem que tudo ou é preto ou está sob seu jugo, caso do branco e das cores “quentes”, como o vermelho, o amarelo e o laranja, mesmo eles, dizia, aqui se vêm diluídos, como se uma noite perpétua embaciasse a luz solar.

 

E aqui ocorre-me que a artista, em seu modo muito particular, aproxima-se do grande Emilio Goeldi, desenhista e xilogravador soberbo, que operando quase exclusivamente sobre um preto ferido em frestas pelo branco, amarelo e vermelho vivos, apresentou-nos uma dimensão da vida urbana brasileira que até então nos era desconhecida. Tinhamos, é claro, o gume cortante de Graciliano Ramos, a tensão dramática de Dionélio Machado, o lirismo submerso na solidão e na impossibilidade de Carlos Drummond de Andrade. Mas não a visão goeldiana das ruas habitadas por vento e chuva, do andar trôpego do bêbado anunciando sua proximidade do abismo, da melancolia vertical do homem que caminha só.

 

Mas a diferença entre Emilio Goeldi e Vânia Mignone é que o universo desta artista pende para o íntimo e confessional, não tanto para a crônica dos locais ermos da cidade que é onde afinal a vida, desataviada, revela sua humildade e dificuldade plenas.

 

Homens e mulheres, objetos, plantas e bichos, além de palavras e números, são apresentados em situações que rondam a incomunicabilidade e solidão e a inevitabilidade de tudo isso, como um pequeno e frágil barco de papel que não pensa em reclamar o fato de navegar a deriva, até porque não teria mesmo a quem se dirigir. Vaí daí, talvez, que o recurso para mitigar essa dolorosa condição seja, por exemplo, o contato com coisas concretas, de pegar: o recurso aos objetos e aos animais domésticos, a conversa de via única com um vaso, a carícia no dorso do gato, o contato atento com o cavalo como quê avaliando sua realidade. Daí também a alusão às plantas, ainda que seja o cacto, cuja estranha indiferença à água ele orgulhosamente ostenta e retribui com sua folhagem ávara, pródiga a não ser pelos espinhos com que finca e fere os dedos daqueles que o procuram.