YURI FIRMEZA E O ARTISTA-FILHO . PAULO HERKENHOFF

Trata-se de inscrever um espaço-situação numa atipologia de artista que Yuri Firmeza simula montar e da qual se evade incessantemente. Pode-se, até aqui, eliminar, por exemplo, a figura de artista-homem-de-negócios . J'est un autre – insistirá sempre o artista rimbaudiano em seu ócio hiperativo . Firmeza é um desaninhador de mitos do artista-herói da forma. Malevitch, suprematista, desaninha um mito moderno: "o artista-ídolo é um preconceito do passado" . Um observador descreverá a impossibilidade de classificação da constelação Firmeza. À arte em estado de crise corresponderia circunstancialmente a um sujeito em estado de crise, a um artista inconstante em sua ação, imprevisível, pois cabe ao artista resolver o arresto da invenção decretado pelo cânon, pelos paradigmas, pelo styling e pelo marketing. Colocar o espectador, o olhar em deriva é soltar as amarras. O arresto é aqui, na obra de Firmeza, um topos dialético no confronto entre o devedor insolvente e o credor anticrético.

 

O artista atipológico indagou-se a si mesmo quem era ele próprio ao artista cognitivo (como conviver, pois, com o não-saber?), que, não sabendo, intuiu que fosse, então, um artista constelar (isso equivaleria a um artista arquipelágico? Seria o espaço constelar tão fluido quanto a água arquipelágica?); mas como, se não existe uma tipologia lógica que se totalize num modelo imaginário dessa práxis? Ele – é de se supor – seria, então, o artista contra-canônico. "O problema que vejo é justamente quando esse mercado [substituo aqui, na fala do artista, esta palavra por "mecanismo de repressão"] passa a nortear a produção de conhecimento, a produção de trabalhos, a história da arte e a própria vida," diz Yuri Firmeza .

 

A instalação Arresto (2010) de Yuri Firmeza remete suas bases ao artigo 813 do Código de Processo Civil brasileiro. Arresto não é sequestro. Cabe aqui uma dúvida: o crítico, o museu, o mercado ou o colecionador sequestra o artista? Sem conhecer ao direito não se penetra adequadamente na obra.

 

"Art. 813. - O arresto tem lugar:

I - quando o devedor sem domicílio certo intenta ausentar-se ou alienar os bens que possui, ou deixa de pagar a obrigação no prazo estipulado;

II - quando o devedor, que tem domicílio:

a) se ausenta ou tenta ausentar-se furtivamente;

b) caindo em insolvência, aliena ou tenta alienar bens que possui; contrai ou tenta contrair dívidas extraordinárias; põe ou tenta pôr os seus bens em nome de terceiros; ou comete outro qualquer artifício fraudulento, a fim de frustrar a execução ou lesar credores;

III - quando o devedor, que possui bens de raiz, intenta aliená-los, hipotecá-los ou dá-los em anticrese, sem ficar com algum ou alguns, livres e desembargados, equivalentes às dívidas;

IV - nos demais casos expressos em lei."

Crítica é hermenêutica. A obra pede uma interpretação do Código de Processo Civil à luz da estética. E propõe algumas indagações: a crítica deve aderir à obra mesmo quando a invenção pelo artista lhe parece em mora? Artistas arrestam críticos? Diante do diferendo de Arresto, cabe a indagação de Jean-François Lyotard se interlocutores são vítimas das ciências e da política da linguagem compreendidas na mesma dimensão em que o trabalhador é transformado em vítima através da assimilação de sua força de trabalho na mercadoria . Esse é o sentido do signo material na produção de Firmeza.

 

Arresto é lugar construído. Muro alto, arame farpado, câmera de vigilância – o vocabulário espacial e material da instalação é prisional, como na geometria sitiada de Abdel Abdessemed. Arresto é signo arquitetônico. Há um voyeurismo no espaço animado por uma vontade panóptica transferida para o espectador. A arquitetura canibaliza o sujeito: o arresto da fantasmática é prisão do corpo. O espectador imprensado entre o muro farpado e o corredor sufocante vive o sítio. Só resta ao sujeito produzir este autorretrato autobiográfico enquanto ser arrestado.

 

Para Yuri Firmeza, o artista-criança (Fortaleza, 2010) não é o artista-filho (Arresto). A condição de artista é irrenunciável e intransmissível . E, contra o inciso I do artigo 3º. do Código Civil brasileiro ("São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil: os menores de dezesseis anos"), o artista-criança não é um absolutamente incapaz. O artista-criança experimenta uma plenitude própria. O artista-criança tampouco seria "o artista enquanto criança", precedente etário de "o artista enquanto jovem", mas a arte como um possível estado de criancice, de ingenuidade perversa. O artista-criança não é o artista jovem nem o artista precoce , nem artista-promessa desarrestado , muito menos o artista-menino; aliás, o artista-menino precisa é "de rua, de companheiros, de papagaios [eventualmente de sabiá], de namoradas, de futebol" . James Joyce trabalhou de modo diferente. No romance Retrato do Artista Quando Jovem (1916), ele trata das passagens do jovem Stephen Dedalus, da infância para a adolescência, o pai ausente, o distanciamento da família e a mudança de Dublin para Trieste. Melhor tratar da condição do artista-criança com a escritura de Bernardo Ramalho, também artista: "Eternidade é ter idade de criança" .

 

Sobre o caput do artigo 813 ("O arresto tem lugar").

Arresto é um ato cautelar do periculum in mora. O que deve o artista? Nada. No entanto, o artista assume tarefas. Arrestar a figura do artista é designar-lhe parâmetros formais e comportamentais. O periculum in mora do artista insolvente se dá na eventual falta de justeza entre projeto e sua realização.

 

Na atipologia de Firmeza, o artista não tem domicílio num padrão de comportamento muito menos num lugar atue ele como artista-flâneur ou artista-guerrilheiro urbano. O indomiciliado é o homo sacer na acepção de Agamben ou o guerrilheiro de Marighella.

 

Sobre o inciso I ("quando o devedor sem domicílio certo intenta ausentar-se ou alienar os bens que possui, ou deixa de pagar a obrigação no prazo estipulado").

O único domicílio do artista é a linguagem [leia-se aqui conforme Heidegger]. Arresto é um estado linguístico. É o artista que não inventa. Contra Josef Albers, seria o que não vive a arte como experiência. Daí, o artista "arrestado no tempo" ("arrested in time") numa expressão de Louise Bourgeois. Isso é o trauma. Ou é como na histeria. O artista derivativo não é o que se põe à deriva, mas o que não se reconhece em deriva nem a trata como problema produtivo. A arte é a garantia de sanidade, afirma Bourgeois, e, então, é o que desarresta o sujeito.

 

Sobre o caput do inciso II ("quando o devedor, que tem domicílio:").

Se Yuri Firmeza tiver domicílio inconstante, este será a ob-scena. A obra de arte, diz Lacan, "como tal se verifica de maneira mais patente com aquilo que é desde sempre e por toda parte: obscenidade" . Impossível deixar de pensar na figura jurídica extraterritorial do homo sacer (apud AGAMBEN, 1998 ).

 

Sobre o inciso II a ("se ausenta ou tenta ausentar-se furtivamente").

"Sabiá na muda: ele escurece o gorjeio..." (Guimarães Rosa. Cara-de-Bronze). A história da arte é uma presença furtiva no grão da voz do artista. Arresto poderia ser denominado Autorretrato como Manuel Osorio Manrique de Zuñiga, em referência à pintura de Goya da década de 1790 . O infante, notável em sua roupa vermelha ou em uniforme de camuflagem, segura uma gaiola com um pássaro. O espanhol evoca o símbolo cristão da alma – o pássaro – preso. Em Arresto o artista é corpo e pássaro canoro ou sabiá na muda.

 

Firmeza é furtivo, não fosse o artista guerrilheiro, sabotador, agente provocador, hacker e fotógrafo de casamento (Museu de Arte da Pampulha, 2009). Seu objetivo, no entanto, opõe-se à disposição do Código. O artista atua como o furtivo exatamente para constituir presença desaninhada, não como tentativa de ausência. A arte é um lugar político de presentificação da ausência – pode a arte pretender-se a-jurídica? A ameaça maior de Firmeza, que implica em cautela institucional, é a presença perversa, não a ausência, como organizar a exposição de um artista inventado para provocar a exposição da fragilidade institucional. Para a generosa hospedagem nos Ninhos e em O ovo, ambos de 1969, Hélio Oiticica e Montez Magno desaninhavam conceitos de arte. Refúgio furtivo em tempos de estado de sítio. "A árvore é um ninho desde que um grande sonhador nela se esconda", escreve Gaston Bachelard . O Ninho e O ovo de Firmeza para si mesmo é Ação 1 (2005) – o artista se vê nu diante do mundo e da Lei e constrói seu ninho furtivo. Seu abrigo para o Outro em sua condição de participante é Deserto povoado (2010), a "inscultura" – modo de designar o site-objeto – que é a escultura anti-barroca da interioridade do sujeito, um ovo retangular, gaveta com alvura suprematista interior .

 

Sobre o inciso II b ("caindo em insolvência, aliena ou tenta alienar bens que possui; contrai ou tenta contrair dívidas extraordinárias; põe ou tenta pôr os seus bens em nome de terceiros; ou comete outro qualquer artifício fraudulento, a fim de frustrar a execução ou lesar credores").

 

Em que fresta da dívida, insolvência, alienação, fraude e artifício, o artista inscreve a obra? O artista furtivo frauda o Real e simula a crise da falsa questão da verdade. À verdade múltipla de Leonilson, Firmeza justapõe o paradoxo estarrecedor de Souzousareta Geijutsuka (um projeto de Firmeza), cujo nome significa "artista inventado" em língua ex-ótica. Firmeza anuncia que o falso é a verdade – eis que é a possível verdade anunciada: a verdade paradoxal da língua, sua dupla verdade . "Nem todos que dizem coisas falsas mentem", relativiza Santo Agostinho (De Mendacio). No entanto, Firmeza, um quase-sofista, indaga com Souzousareta Geijutsuka: mentir é condição da verdade?. "A língua não mente", argumenta Harald Weinrich, "e não mentimos quando falamos por imagens" .

 

Sobre o inciso III ("quando o devedor, que possui bens de raiz, intenta aliená-los, hipotecá-los ou dá-los em anticrese, sem ficar com algum ou alguns, livres e desembargados, equivalentes às dívidas").

 

Na dívida de Arresto nada está livre ou desembargado, nem o espaço, nem a linguagem, nem o artista, nem o espectador. O artista-filho é um ser anticrético. Sobre o inciso IV ("nos demais casos expressos em lei"). Crime antropofágico em Arresto de Firmeza: o devedor mata o credor. "O que atrapalhava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará" (Oswald de Andrade, Manifesto antropófago) e Freud explicará. "Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem" (Manifesto antropófago).

 

Arresto é busca do pai. Yuri Firmeza procura-o como James Joyce, Louise Bourgeois, Gerhard Richter e Hilal Sami Hilal. Régis Michel demonstrou como, na história da arte, a própria modernidade tem uma ordem que se define como Lei do pai . O que é um pai? Esta pergunta atravessou a teoria psicanalítica de Sigmund Freud em distintos aspectos (o complexo de Édipo, a castração, entre outros). Ela também conduziu Jacques Lacan a desenvolver as teses das dimensões do pai para o sujeito: pai real, pai simbólico e pai imaginário (a relação triádica lacaniana R.S.I.: real / simbólico / imaginário) .

 

Procurar o pai. Vestido com o signo da ordem: o uniforme militar – roupa canibal do Manifesto. O filho – a foto à imagem do Pai? – está no segundo "círculo" de muros retangulares de Arresto, como o faminto Ugolino murado com seu(s) filho(s) numa torre do círculo segundo - Antenora - na Divina Comédia. Não há saída. A camuflagem não burla o regime ótico do monocromo cinza. Lacan: o Não do pai / o nome do pai. A lei do Pai. O paradigma do pai. Freud. O parricídio e a prisão. Michel Foucault: o que arresta a linguagem e o sujeito? Nas conquistas da modernidade e de sua crise, o cânon é impotente para tornar expressos casos de arresto do estado de invenção. Inversão dantesca: murado, o filho devorou o Pai. Inversão freudiana: recalcado, o filho devorou o pai . Inversão antropofágica: Oswald de Andrade deglutiu o Freud de Totem e Tabu. Inversão eucarística: não se come do corpo nem se bebe do sangue do Filho. Não restam sequer os ossos ou vestígios do sangue de Ugolino. Nenhum vestígio visível do humano Inferno e do tabu regulatório. O inferno são os outros, está no aforismo de Sartre. Só o trauma e só uma possível data para o Moloch: 1964 e sua paródia militar. A paródia em camuflagem do regime de exceção constitucional . Canibalismo político. O artista desregula a Lei do Pai. Virar artista foi a ecdise do sujeito . O sabiá passou a cantar (ou sorrir). Foi. Fluiu. Voltou. Andou. Caminhou. Deambulou. Circumdeambulou. A linguagem é fluxo. O inominado é a espera. Camuflado, esperou. Esperou. Esperou. E ninguém veio e ninguém viu-o. Nem o pai.

Paulo Herkenhoff, 9 de abril de 2011