EU QUERO VER . RICARDO RESENDE

 

Girar girar girar é a sensação de quem desce correndo a monumental escada de Lina Bo Bardi do Solar do Unhão, em Salvador. Edifício construído no século XVI e hoje sede do Museu de Arte Moderna da Bahia.

No grande salão vazio reina esta “escultura” de subir e descer feita em madeira e construída apenas no encaixe de uma peça a outra, como na técnica de construção antiquíssima dos velhos carros de bois.

Obra prima da arquitetura que não se resume a uma escada de deslocamento vertical, portanto. A escada é experiência única que deixa atordoado quem experimenta sua subida ou descida. 

A escada de Lina Bo Bardi, é como um poema Haicai, é livre, é exata. Como ela própria definia sua arquitetura, “é poesia.”

Mas não é uma escada qualquer, de fato. É uma entidade espiritual em simbiose com a história do lugar. Uma escada “carregada”, portanto.

“As escadas sempre fascinaram o homem. As grandes escadarias das cidades, as escadas dos troncos, dos templos... são um elemento fascinante, e eu sempre fui, como arquiteta, fascinada pelas ideias de uma escada. Nunca tomei uma escada como um elemento prático, para subir de um nível a outro.”[1]

A arquiteta girou a Bahia enquanto ali viveu. Foi para o espaço e girou e girou e criou o que parecia ser uma escada que tem algo de indefinido para quem a observa reinando no meio do espaço, bem no centro do Solar do Unhão. Posição simbólica como o centro do mundo espiralado, que gira gira gira.

Lina criou uma pomba-gira espacial na forma de uma escada que gira gira gira todos que sobem ou descem de um andar a outro. Ela comunica dois pavimentos do grande e imponente edifício que já foi originalmente um engenho de cana açúcar, depois transformou-se em residência, funcionou como depósito para o porto de Salvador e serviu ao exército até que na década de sessenta, foi cedido para a criação do MAM Bahia. Foi restaurado e reformulado por Lina Bo Bardi, e a escada foi a sua mais significativa intervenção no Solar do Unhão.

Lina nos deu foi um grande Saravá. Uma escada em transe. Como uma dança onde se rodopia e se encontra na força da espiral ascendente ou descendente que movimenta na natureza com sua força gravitacional. Nos levando para cima ou para baixo.

O artista já tinha definido por ocasião da nossa conversa, a concepção do que iria realizar e que materiais e imateriais iria agrupar para executar o seu trabalho.

“Eu quero Ver” nasce de duas pesquisas que caminharam paralelas durante os últimos anos; dando sequência à pesquisa iniciada no ano passado, quando o artista esteve na Bahia, motivado por um projeto idealizado de Mario de Andrade, de 1937, a Missão Folclórica organizada pelo Departamento de Cultura da Cidade de São Paulo. 

A expedição saiu do estado de São Paulo e percorreu os estados do Nordeste e Norte brasileiros, coletando sonoridades (músicas, danças, vestimentas, objetos artesanais, arte popular, instrumentos musicais, fotografando e filmando o que encontravam neste sinuoso caminho que fizeram pelos interiores do Brasil. 

Este acervo encontra-se sob a guarda do Centro Cultural São Paulo.

Na outra pesquisa, Ivan Grilo retoma os estudos sobre a obra da arquiteta italiana Lina Bo Bardi, que iniciou quando da sua participação na I FotoBienal do Museu de Arte de São Paulo, de 2013.

Para essa exposição, Eu quero ver, Grilo se baseia em conhecimentos ancestrais africanos transmitidos através das gerações pela oralidade, captados principalmente durante sua visita a Salvador e ao Recôncavo Baiano; da mesma forma como utilizou o conhecimento acadêmico ocidental, pesquisando em acervos como do Instituto Bardi (Casa de Vidro), Museu de Arte de São Paulo, focando principalmente no período em que Lina viveu na região nordeste do país.

O artista, portanto, relatou nessa conversa inicial, que partiria de Lina Bo Bardi, passaria pelo Solar do Unhão, chegaria até a escada feita sob as influências do Candomblé e dos terreiros da Bahia.

Dentro deste sincretismo, acrescentaria a história da própria arquiteta e, por fim, o que não se pôde ver na sua exposição `Civilização do Nordeste’, que foi censurada em 1965,.

Pronta, a mostra apresentada em 1963 no Solar do Unhão, seria aberta na Galeria de Arte Moderna de Roma dois anos mais tarde.

Na ocasião foi considerada, com o uso dessa palavra “miserável” pelo embaixador à época. Uma mostra que tratava da cultura popular e do artesanato do povo brasileiro. O povo que habita a região nordeste do Brasil.

O embaixador incomodou-se e considerou o que seria mostrado como não “digno” de representar a cultura brasileira e o país “civilizado” em Roma.

Não se viu.

Restou um “branco” leitoso. Uma memória apagada. Uma cultura jogada para baixo. É algo que desapareceu dos olhos das pessoas que iriam ver a exposição. Elas não viram.

O nordeste é onde tudo começou. Termina onde começa o Brasil, como escreveu o crítico de arte baiano, Clarival do Prado Valladares.

Em outras palavras, a história do Brasil começa onde a do nordeste termina. E foi negada por “retratar” a simplicidade das criações do homem do nordeste, expresso em seus objetos artísticos, artesanais e crenças.

“Civilização”, como escreveu Lina sobre esta mostra, “é o aspecto prático da cultura, é a vida dos homens em todos os seus instantes.” [2]

Construída com carrancas, ex-votos, bonecos de barro, “desde iluminação até as colheres de cozinha, as colchas, as roupas, bules, brinquedos, móveis, armas...

Cada objeto risca o limite do “nada”, da miséria. Esse limite e a contínua e martelada presença do “útil” e “necessário” é que constituem o valor desta produção, sua poética das coisas humanas não gratuitas, não criadas pela mera fantasia.”[3]

Como Lina Bo Bardi fazia em um projeto de arquitetura, Ivan Grilo também junta ideias no espaço expositivo. Seja o espaço de um museu, de um centro cultural ou como agora, de uma galeria comercial de arte.

Ambos, arquiteto e artista, tratam suas criações como poemas visuais.

A arquitetura como poesia e a memória materializada em esquemas visuais, na fotografia, no vidro leitoso, nos textos que acompanham as imagens, na memória de todos estes elementos compostos vistos e não vistos. Tudo se transforma em poesia, com Ivan Grilo. As coisas transformam-se em memória poética narrada.

O convite para escrever veio em função de já termos trabalhado juntos na I FotoBienal do Museu de Arte de São Paulo, em 2013. E também por ter defendido um mestrado em que o meu objeto de estudo, eram os museus e a museografia de Lina Bo Bardi, onde tratei do dentro e do fora. Da transparência e da opacidade. Do concreto e da água. Do que é sólido e do que se desfaz. Do romântico e do bruto, na obra da arquiteta.

Para aquela exposição de fotografia no MASP, o processo de criação foi o mesmo. Agora papéis invertidos. Fui eu que “encomendei” o trabalho do Ivan para a I Foto Bienal. Pedi que desenvolvesse um trabalho à partir dos arquivos do MASP, já que o artista vinha se destacando por criar trabalhos dessa natureza, que lidam com a memória do lugar onde expõe, pelas imagens. Deu no que deu. Um belo trabalho que dialogava com a história do edifício e a arquitetura do local.

O artista resgatou os cavaletes de Lina Bo Bardi usados para expor as pinturas da coleção e que tinham sido “aposentados” pela direção do museu à época. E, trabalhou o conceito que a norteou e que é a alma do prédio brutalista dependurado sob pilares de concreto na Avenida Paulista. Uma ode a transparência e a opacidade, ao peso e a leveza.

O dentro e o fora. O vidro que toda luz deixa passar. Para isso a arquiteta usou muito vidro. Espaços vazados. Transparentes.

Ivan Grilo trabalha com os arquivos fotográficos. Usa a fotografia  descompromissada de ser documental. Ele a liberta do objetivo de documentar mas, ainda sim, não deixa de criar um novo documento ao construir novas realidades com suas veladuras sobre as imagens quando deixa ver e não ver.

O resultado dá a ideia de apagamento como se fosse um efeito do tempo para as fotos e documentos resgatados nas suas pesquisas iconográficas e históricas. Como o faz agora para esta exposição da Galeria Triângulo.

Grilo age no tempo, interrompendo a história da imagem e das coisas, de maneira que permite um recomeço, uma segunda trajetória.

O “imaginário fotográfico” de Ivan Grilo não precisa do ato de fotografar para construí-lo. O artista trabalha com imagens vindas de acervos museológicos. Pesquisa a memória material e imaterial da cultura, da arquitetura, das religiões que são trazidos para suas instalações e objetos fotográficos.

É um processo diário de uma obra sempre em processo.

Ao juntar imagem e matéria, estes acabam se tornando um só processo indissociável, no qual não seria mais possível definir o que seria suporte e o que seria imagem. Tudo se torna o trabalho artístico.

Este texto, foi ele quem me pediu para escrever, e tive que fazer no processo inverso de quando um curador solicita para um artista produzir um trabalho para uma exposição. Foi a partir de nossa conversa que esbocei sobre algo não concluído. Algo que estava ainda no plano das ideias.

Lina foi protagonista do momento mais rico da cultura brasileira que se deu em  meio a muita repressão, muita violência contra os homens de bem, os homens simples do nordeste. Não é muito diferente do que se vê hoje quando se pede à volta do militarismo, por pessoas que desejam o mal para o outro. A repressão nunca é “para mim”, é para o outro.

Mas aquela exposição foi o que não se viu na Itália. Teremos ainda outras que não veremos?

O título da exposição  tem certo embasamento no jogo de camadas/visibilidades persistente nos trabalhos de Ivan Grilo, mas também tem inspiração na canção de 1974 do Jorge Ben, que diz "Eu quero ver quando Zumbi chegar, o que vai acontecer". Dessa forma, a exposição também faz referência [e reverência] a ícones da história brasileira como Zumbi dos Palmares e Antônio Conselheiro.

Ver sempre. Mais ainda aquelas exposições com a arte dos pobres e seus heróis, que tanto assusta os generais.

 

 



[1] Lina por Escrito. Textos escolhidos de Lina Bo Bardi/organizado por Silvana Rubino e Marina Grimover; introdução Silvana Rubino. São Paulo: Cosac Naify, 2009, pag. 155.

[2]Ibdem, pag. 116.

[3]Ibdem, pag. 117.