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AVAF – ALISABEL VIRIL APAGÃO FENOMENAL . KIKI MAZZUCCHELLI

Big Ben

 

Durante uma de suas frequentes deambulações pela região central da cidade, a. se depara com um extravagante elemento arquitetônico que lhe chama atenção. Banhado por uma iluminação avermelhada que emana de uma instalação de lâmpadas fluorescentes à la Dan Flavin que formam um quadrado em uma das paredes, o inusitado átrio se abre para os transeuntes na calçada em plena Rua Augusta. Em seu interior, há ainda uma fonte cuja forma reflete perfeitamente o quadrado da parede, com um único jato d’água que se projeta verticalmente e vigorosamente do centro e uma parede decorada com uma espécie de cobogó futurista que lembra as Silver Clouds de Billy Kluver e Andy Warhol. Dois elementos mais corriqueiros e singelos completam o ambiente: um banco de jardim ordinário e uma pequena árvore plantada num vaso.

 

A experiência estética deste ambiente excêntrico de contemplação, com seus signos discordantes que ora apontam para a high culture do museu de arte contemporânea, ora para a atmosfera kitsch das casas noturnas, causa uma forte impressão em a., que se sente inexplicavelmente atraído pelo local. O estranho átrio, como não poderia deixar de ser, é o chamariz de um estabelecimento de strip-tease apropriadamente denominado Big Ben, cuja extensa fachada inclui ainda uma reprodução da célebre torre do relógio em Westminster, numa exaltação pop da virilidade masculina que provavelmente agrada a clientela.

 

Alguns meses se passam e a., ainda intrigado (porém sem saber muito o porquê), com a imagem daquele edifício que não lhe sai da cabeça, decide retornar ao local. Nesse momento, é tomado por um choque indescritível, como se sua premonição incerta tivesse subitamente se consumado em algo palpável. Os arredores da casa noturna, onde antes havia dezenas de estabelecimentos comerciais e prédios residenciais, tinha sido botada abaixo, um enorme quarteirão em plena região central inteiramente apagado do tecido urbano quase que da noite para o dia. Em meio à devastação generalizada, uma única edificação ainda se ergue orgulhosamente, desafiando o apetite feroz dos especuladores imobiliários. Ali, segue existindo o difamado Big Ben, transmutado agora em alegoria da resistência de uma memória de usos e vivências urbanos.

 

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alisabel viril apagão fenomenal 

 


Alisabel Viril Apagão Fenomenal é a terceira exposição individual de avaf na Galeria Triângulo e, de certa forma, marca o encerramento de um ciclo – ao menos provisoriamente – de quase uma década de projetos que envolviam um grande número de colaboradores e apontavam simultaneamente para uma multiplicidade de temas e referências. Esses trabalhos, cuidadosamente documentados em uma monografia publicada em 2010, eram, sem exceção, extremamente complexos e detalhados, e demandavam um esforço curatorial e organizacional tremendo por parte dos dois membros permanentes do coletivo. A avalanche de cores, elementos, personagens e participantes era o traço característico dessas grandes instalações ambientais que estabeleciam uma série de relações específicas com os locais onde eram apresentadas. Referências à situação política atual conviviam com narrativas sobre figuras heróicas porém obscuras da cena underground; esculturas, desenhos, vídeos e performances de colaboradores locais eram incorporados com naturalidade de modo a enfatizar certos tópicos que se faziam importantes em determinados momentos - a “morte do autor” levada a seu grau mais extremo. Esses espaços de intenso estímulo sensorial promoviam o contato e a vivência do público com uma série imagens e experiências que, em grande parte, se referiam a comportamentos e pensamentos largamente desprezados pelo status quo pequeno burguês, selecionados pelos artistas por seu potencial transformador.

 

Nesta exposição, o avaf parece se mover em uma nova direção. À primeira vista, o que percebemos é a ausência do colorido característico dos trabalhos anteriores. Aqui a paleta é restrita, o espaço dominado apenas pelo vermelho, branco e preto – as cores de São Paulo. As paredes do cubo branco são pintadas de preto e cobertas com inscrições que replicam o estilo de escrita das pichações onipresentes na cidade e a instalação que ocupa o piso térreo apresenta estruturas em metal vermelho com composições abstratas feitas com os tradicionais ladrilhos hidráulicos utilizados nos antigos calçamentos. Todos esses elementos parecem indicar que aqui encontramos uma unidade temática que antes inexistia na obra do avaf, não por incapacidade, mas justamente porque sua pesquisa toma aqui um rumo distinto.

 

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anárquica voracidade do apetite financeiro

 

No princípio de tudo, o Big Ben. Este caso paradigmático do desenvolvimento imobiliário movido exclusivamente por interesses privados foi o ponto de partida para uma reflexão sobre as transformações recentes no tecido urbano da cidade de São Paulo. Os novos empreendimentos de alto padrão, verdadeiras torres blindadas que pululam incontrolavelmente pela cidade, prezam acima de tudo o isolamento daquilo que está fora – a segurança é a palavra chave -, ignorando por completo o impacto causado sobre tecido urbano e sobre a dinâmica urbana existente em seus arredores. A maquete do peculiar átrio do Big Ben apresentada nesta exposição é portanto uma espécie de homenagem a este que edifício que permaneceu como o solitário símbolo de resistência ao gradual apagamento da área do Baixo Augusta, que por muitas décadas caracterizou-se por uma vibrante integração social e pelo uso do espaço público. Segundo o avaf, ainda que essa integração tenha acima de tudo um caráter hedonista, representa uma identidade específica de São Paulo que hoje se encontra ameaçada de extinção.

 

Nas paredes, a pichação exibe as ridículas palavras que invariavelmente se repetem nos anúncios publicitários das novas fortalezas paulistanas. Gourmet, life, park, palavras estrangeiras que sugerem o estilo de vida sofisticado e tranqüilo que só pode ser obtido entre quatro paredes, protegido por ao menos dois portões. A pichação que cobre a fachada de milhares de edifícios por toda a cidade compõe a paisagem para além do espaço privado, faz parte daquilo que não se quer ver, do que se quer negar. Espécie de grito dos jovens da periferia contra a brutalidade de sua própria invisibilidade numa sociedade segregacionista, possui sem dúvida um elemento de violência visual. A rua invade o cubo branco da galeria, e a estética da pichação é apropriada como um grito zombeteiro contra a brutalidade dos interesses privados que despedaçam o tecido urbano à sua própria revelia, gerando ainda mais problemas de circulação e fluxo e inflacionando bairros mais populares numa cidade que já se encontra em estado avançado de degradação.

 

Uma série de trabalhos mais celebrativos se encontra espalhada sobre as paredes pichadas. Nas Transgeométricas, o avaf utiliza mais uma vez a imagem da travesti/ transexual, amplamente presente desde o início de sua trajetória artística. A ideia de um estado de transformação permanente é encapsulada por essas figuras, cuja sexualidade não pode ser definida de acordo com as categorizações de gênero tradicionais. Curiosamente, são também um dos principais protagonistas (junto com as prostitutas, michês e outros personagens “indesejáveis”) do movimento de limpeza da região do Baixo Augusta. Nas peças de paredes aqui apresentadas, pedaços de corpos impossíveis aparecem como que pendendo ou brotando de composições rigorosamente geométricas que aludem ao legado concretista da cidade. O submundo encontra a alta cultura, porém o resultado é menos um contraste entre universos díspares do que o encontro de manifestações que, cada uma à sua maneira, oferecem possibilidades de transformação mais auspiciosas para o futuro da cidade do que as que vêm sido promovidas pela especulação imobiliária recente. Há, no âmago de ambas manifestações, um elemento de vida coletiva ou ao menos uma vontade ou uma necessidade de habitar e transformar criativamente o espaço público.

 

A grande instalação que ocupa a parte central do térreo da galeria foi desenvolvida em colaboração com o artista turco radicado em Berlim, Yusuf Etiman. Entusiasta da cidade de São Paulo, Etiman documentou seções do calçamento nas quais o tradicional ladrilho hidráulico preto e branco - composto de diferentes designs que juntos deveriam formar uma imagem estilizada do mapa do estado paulista – havia sido assentado de maneira espontânea, criando novas composições geométricas. As fotografias desses novos padrões serviram de base para a instalação escultórica composta de mesas de metal sobrepostas cujo tampo é recoberto com ladrilhos hidráulicos que reproduzem seções desses arranjos aleatórios. A justaposição dessas seções cria ainda mais composições espontâneas e tridimensionais, e aquilo que foi originalmente criado para organizar o espaço público se apresenta aqui completamente despedaçado, coordenado apenas pela lógica subjetiva de cada um dos autores dos assentamentos registrados por Etiman.

 

alisabel viril apagão fenomenal propõe um foco muito claro e lida com a necessidade urgente de se encontrar soluções produtivas para uma vida melhor na cidade de São Paulo. Ode e ódio coexistem; há a exaltação das forças de resistência positivas e de um legado cultural valioso, mas há também a inconformidade em relação ao descaso do estado e da sociedade e a incapacidade de se resolver problemas básicos. Certamente, trata-se de uma exposição com um tom mais grave, que apresenta aspectos conflitantes de uma cidade marcada por décadas de negligência e abandono da vida pública. Essencialmente, levanta a seguinte questão: como será o futuro desenhado pelas forças de desejo dessa sociedade?