O CRISTAL . PAULO HERKENHOFF

“Em quase cinco décadas de produção, Ascânio Maria Martins Monteiro construiu uma minuciosa obra – transparente em sua poética e firme em sua lógica construtiva – que lhe garante um lugar histórico na trajetória da abstração geométrica da América Latina. Esta foi sua práxis exclusiva. Ascânio nunca fez uma obra figurativa. Desde seu primeiro trabalho em 1964, o artista manteve de modo consistente a opção construtiva, mesmo com o contínuo processo de invenção de problemas plásticos e experimentação de materiais. O lugar de Ascânio no projeto de arte concreta, os aspectos culturais de sua origem portuguesa, sua formação, o esforço de construção da linguagem e de seus signos materiais, as proposições fenomenológicas e simbólicas, a participação no processo histórico da arte brasileira, sobretudo na Geração MAM, o âmbito de sua produção, seu programa estético, a poética e o sentido da obra, a vontade construtiva e o viés arquitetônico da escultura vinculado à questão social da habitação, o substrato dialético e político da forma e o inconsciente matemático – todas essas são questões que surpreendem o historiador. Compreender a dimensão dialética da produção de Ascânio é de natureza similar à reponsabilidade de todo “psicólogo do espírito cientifico” – uma acepção de Gaston Bachelard –, que deve viver o estranho desdobramento da personalidade geométrica que se efetuou ao longo do último século e meio da cultura matemática. No entanto, diferentemente do matemático, Ascânio MMM não reprime a intuição (nem a sublimação da experiência). Seu desafio bachelardiano foi sempre realizar a conversão da realidade racional em poética experimental.”

 

“O cristal”. In: Ascânio MMM: Poética da Razão. São Paulo: BEI Comunicação, 2012, p. 7

 

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