ESTIMADO SELVAGEM . CARLA ZACCAGNINI

Já escrevi uma vez sobre os padrões da natureza que se repetem naquilo que é acaso ou acidente. Como o desenho dos rios se assemelha ao desenho dos raios, para além da grafia quase empatada, por exemplo. Mas aqui é outra coisa. Aqui se trata de uma aproximação de padrões estruturais: os nós da madeira e o moiré da água, o veio da madeira e o pêlo do animal. Há, também naquilo que é norma ou essência, uma ordem que se repete não como processo construtivo, não como matéria constitutiva, mas como resultado formal.

Claro que para isso é necessário o recorte, olhar do ângulo certo e da devida distância. Ver os rios de cima e os raios de baixo, por exemplo. Ou ver a madeira já cortada e o animal parado e quieto. É preciso um sujeito que assim deseje e determine para que a natureza possa ver-se espelhada em si mesma. É preciso o filtro da cultura para revelar a natureza, ao menos para fazê-lo de forma comparativa e capaz de implicar em conclusões.

E talvez seja isso a cultura: comparar e concluir. A construção de um olhar que recorda, que ao ver algo novo se reporta ao passado, procura e encontra o que já viu de semelhante, e é capaz de aproximar a experiência presente daquela que guarda na memória. Procedimento cheio de falácias, claro está, de pequenos e grandes enganos, de desvios e deturpações. Como quando ao ver determinada interpretação da silhueta dos Alpes quase sentimos o cheiro do chocolate. Como quando um tecido estampado com um padrão de madeira, na horizontal e em movimento contínuo, nos faz ver um rio. Sem deixar de ver o tecido, sem deixar de ver o desenho e a referência à madeira, sem deixar de ver a máquina e o movimento. Em momentos assim, quando a percepção é dúbia, se faz possível entender o funcionamento desses mecanismos, seus truques e nossa inocência - sempre posta a prova.

A indústria, por outro lado, e talvez em particular a indústria da cultura, cria ilusões baseadas na nossa necessidade de reconhecimento. Essa necessidade de aproximar imediatamente algo novo aos nossos registros faz com que entendamos qualquer objeto inédito que vagamente se assemelha a outra coisa - e tudo se assemelha vagamente - como um derivado ou uma adjacência dessa coisa já conhecida. E concluímos: não há nada de novo.

Procedimentos industriais estudam e padronizam veios de madeiras e pêlos de animais e nos permitem selecioná-los por catálogo. Aqui os catálogos se fundem. Confundem olhos mais treinados a inventariar todo pau marfim como pau marfim, e toda fórmica jacarandá como jacarandá, do que a estudar as especificidade do desenho de uma única árvore cortada em sentido longitudinal.

Ao reconhecimento da estampa dessa superfície como madeira que não é, se soma o reconhecimento do desenho do leão deitado como vaca de presépio. Um leão que já foi ilustração de um guarda-sol, objeto semelhante à sombrinha que nos protege dos raios infravermelhos ou ultravioletas propiciando um contato saudável com o ambiente externo. E a memória do pêlo do leão pintado por Delacroix ou visto no Discovery Channel. As duas coisas convivem, oscilam sendo uma e outra, e revelam, nesse movimento pendular, a construção que há em toda decodificação do mundo.