ALCINO LEITE ENTREVISTA EDUARDO BERLINER

ALN Você desenha há muitos anos, também fez projetos artísticos com objetos e chegou até mesmo a realizar uma performance, mas só há pouco tempo resolveu se dedicar principalmente à pintura. O que o levou a se concentrar nessa atividade? Na sua opinião, qual é o lugar da pintura na arte atual e qual o significado dela para nossa época?

 

EB Tentar lidar com um só problema através de diferentes caminhos é uma pratica que me acompanha desde os últimos dois anos da faculdade de design gráfico, quando passei a utilizar ferramentas específicas daquele meio para desenvolver projetos pessoais.

 

O projeto de final de curso consistia em um livro, para o qual criei uma narrativa que interligava texto e desenho, um afetando o outro. Uma das ramificações desse projeto foi o desenvolvimento de uma série de objetos. Retirei a pelúcia de vinte coelhos e redesenhei suas embalagens. O trabalho foi apresentado como uma performance, na qual os coelhos espalhavam-se pelo espaço expositivo. Retirar as peles dos coelhos foi uma tentativa de lidar com as questões análogas às que eu vinha desenvolvendo no livro. Mais ou menos nessa época, paralelamente à faculdade, comecei a estudar arte e desenho com o professor Charles Watson. Depois, passei a freqüentar semanalmente um grupo de estudos em seu ateliê, onde discutíamos projetos em andamento. Eu desenhava e desenvolvia objetos.

 

As cores entraram gradualmente nos desenhos, quando utilizei pastel oleoso. Usei o óleo sobre tela pela primeira vez durante um exercício proposto aos alunos do grupo. Até aquele momento, eu não considerava a possibilidade de utilizar esse suporte, talvez pelo peso da tradição. Depois desse primeiro exercício, o receio se dissipou. Continuei pintando por conta própria. Aos poucos percebi que estava concentrando a maior parte dos meus esforços nessa direção.

 

Penso que a pintura ocupa hoje, na arte, o mesmo lugar que qualquer outra forma de expressão artística. Esse nivelamento estimulou o surgimento de uma multiplicidade de maneiras de abordar a pintura. Ela passou a ser contaminada por outras formas de expressão e outras áreas do conhecimento. Por isso não é estranho em nossa época ver trabalhos de pintura figurativa ou abstrata ou afetada por práticas instalativas, escultóricas ou performáticas.

 

Eu diria ainda que a pintura requer uma temporalidade diferente do ritmo efêmero das imagens difundidas através da mídias. O processo da pintura pede um outro tempo, tanto daquele que pinta, quanto daquele que observa o trabalho.

 

No meu caso, a pintura me ajuda a estabelecer uma relação primordial com a fisicalidade do mundo. Quando, por algum motivo, preciso passar alguns dias sem pintar ou desenhar, sinto como se eu andasse com esponjas sob os meus pés. Diminui minha sensação de atrito com meu entorno, como se eu não conseguisse tocar (e ver) de fato as coisas, o que a pintura me permite fazer.

 

ALN Antes de fazer um quadro, você trabalha com variados recursos e linguagens – fotografias, esculturas, instalações, colagens, objetos, detritos etc. Ou seja, o quadro é o resultado sintético de uma série de intervenções anteriores de outras linguagens sobre as coisas, sobre os "referentes". Ele nasce de um conjunto de desafios que você se coloca antes mesmo de iniciar a elaboração da tela. Por que você prefere não fazer uma apropriação direta dos objetos e dos seres no quadro?

 

EB Depois de trabalhar uma série de pontos de partida que considero interessantes, fico um tempo sem saber o que pintar. Às vezes, meu interesse é guiado por algo que tenha acontecido nas telas mais recentes, outras vezes, pode mudar dramaticamente, norteado por algum tipo de percepção sobre meu entorno – coisas do mundo ou eventos referentes à relacionamentos humanos.

 

Enquanto penso o que vou fazer, naturalmente acabo mexendo em coisas. Manipular coisas com as mãos é uma forma de pensamento complementar ao processo do desenho e da fotografia (ando sempre com meu caderno de desenhos e minha câmera fotográfica).

 

Muitas vezes desmonto ou quebro coisas, enquanto as manuseio. Nessa ocasiões, tenho a oportunidade de perceber algo que até então não havia notado. Não vejo como destruição, mas como algo novo. Do colapso dos materiais e das tentativas de continuar o trabalho, surge algo que eu não poderia prever. Nesse processo, vão aparecendo outras idéias, outros desafios.

 

Diariamente sou afetado por pequenos eventos. Por exemplo, um pombo doente escondido numa reentrância da calçada. Não é só o pombo que interessa. O contexto todo é importante: a aparência do animal, a luz, as cores e meu estado de espírito naquele momento...

 

Outro dia, observei uma cadeira de rodas atrás de um vaso de plantas dentro de uma agencia bancária. Perguntei ao gerente se poderia fotografar, e a resposta foi negativa, por razões de segurança. Decidi, então, recriar o interior do banco no meu ateliê. Comprei um carpete cinza, que imitava o granito do piso do banco, um vaso de plantas, uma cadeira de rodas e uma lata de lixo cromada. Enquanto montava o cenário, percebi que a sensação que havia me levado a tentar recriá-lo não era mais a mesma, então segui trabalhando até que algo voltasse a me afetar.

 

Percebi também que podia fazer outras coisas que não seriam permitidas no banco, côo uma respiração boca a boca e uma massagem cardíaca em um boneco de testes usado por estudantes de medicina. Inseri outros elementos no cenário, inclusive um boneco desses, provavelmente por ter visto recentemente por um homem carregando no colo um deles durante a noite.

 

Quando o cenário ficou pronto, achei que talvez eu tivesse criado algo independente, com força própria, que ao mesmo tempo me permitia fotografar e manipular o ambiente do banco e inventar outro espaço, híbrido (nem bancário nem hospitalar), um tanto estranho, mas não imaginário,pois foi baseado em observações e, mais do que isso, na própria recriação do espaço com os elementos que lhe pertencem. Mas ainda não tenho certeza de como prosseguir. Acho que existe uma potencia enorme em tentar lidar com as lacunas deixadas por informações que não consigo relacionar inteiramente.

 

ALN Mesmo que você mascare, deforme, metamorfoseie e até apague "personagens" e outros elementos de seus quadros, suas telas permanecem no registro da pintura figurativa. Alem disso, você parece ter grande confiança na representação pictórica de ambientes, cenas ou situações em que o peso da figuração é crucial, ainda que resultem em imagens perturbadoras, nas quais se confundem o familiar e o estranho, o natural e o absurdo, a violência e o lirismo. Por que a figuração é importante para o seu trabalho? Como nascem e como você desenvolve os "temas" de suas telas?

 

EB A importância da figuração está relacionada ao desenvolvimento de narrativas baseadas na observação do mundo e em meu universo pessoal. No entanto essas narrativas não possuem uma mensagem precisa. Não têm início, meio e fim. Podem surgir de imagens mentais ou do estranhamento que me causa algo que vi.

 

Mesmo partindo de uma imagem mental, no entanto, procuro algo no mundo que ajude a visualizá-la. Nessa tentativa de criar um modelo no mundo para algo que imaginei, manipulo objetos, faço desenhos, crio colagens e tiro fotos. Para mim, pintar começa muito antes de tocar a superfície da tela. O próprio processo de materialização das imagens mentais já faz parte da narrativa do quadro, expressando meu dialogo com a matéria.

 

Certas vezes, o processo de pintura de um quadro pode ser extremamente lento, confuso, arrastado e cheio de mudanças de rumo. Em outros momentos, o trabalho se desenvolver de forma precisa, veloz e vigorosa. O ritmo do trabalho pode mudar bastante dentro de uma mesma pintura. Duvida, cansaço, impaciência, precisão, brutalidade e delicadeza – tudo isso se acumula sobre a superfície da tela.

 

No quadro Enterro, por exemplo alguns dos objetos pintados foram o resultado da união de fragmentos, de coisas ou de pedaços de coisas que juntei durante meses e reorganizei, guiado pela sensibilidade dos olhos e das mãos, pela origem dos objetos e seus materiais: um mobilizador para perna utilizado anteriormente por minha mãe, um modelo dos ossos do joelho, uma máscara de caveira e uma planta.

 

Para mim, são todos eles símbolos de finitude: o gradual processo de envelhecimento evidenciado pela perda de força e resistência dos membros, minha própria finitude percebida através do envelhecimento dos meus pais... Eu mantinha esses objetos organizados num canto do ateliê. Pensava neles como uma espécie e natureza-morta. Norteado por outro interesse, a estranheza que sinto diante de paredes forradas com fotografias de paisagens dentro de espaços arquitetônicos, comecei a imaginar animais selvagens caçando nesses lugares, e isso me levou a desenvolver uma máscara de lobo, feita de xaxim.

 

Posteriormente, percebi a oportunidade de unir essa máscara aos demais objetos, em uma situação encenada em uma vila vizinha ao meu ateliê. O que me chamou a atenção na vila foi um monte de areia com uma peã enterrada, que seriam utilizados para preparar cimento. Toda a atmosfera me interessava: as cores, a luz e a possibilidade de usar o monte de areia em uma cena sobre enterro.

 

Enquanto fotografava, imprevistos, como um menino que resolve olhar o "lobo" de perto, trouxeram realidade e familiaridade a uma situação dirigida e a princípio absurda. As fotos tiradas nesse dia serviram como ponto de partida para a pintura.

 

O que pretendo com esse trabalho? Não sei ao certo, mas acredito que, durante o processo de pintura, meus pontos de partida bastante pessoais, aparentemente absurdos ou fantásticos, possam se transformar em imagens que carreguem uma força de evocação abrangente, onde o outro talvez possa encontrar um pouco de si mesmo.