RESSACA . BRUNO DE ALMEIDA

Ressaca é o conjunto de efeitos na sequência de um acontecimento, aquilo que fica ou que produz algo. O movimento anormal de refluxo das ondas. Os sintomas físicos que aparecem quando os efeitos tóxicos começam a abandonar o corpo. A náusea e as vagas que submergem o litoral. Os presságios das mazelas psicológicas e as promessas de mudança. As correntes que tragam banhistas e os detritos que escorrem na praia. A ressaca prenuncia que o porvir não será como o pretérito. É dúvida, visão turva e projeção. Ressaca é simultaneamente um momento de síntese e inflexão, é o culminar e o recomeçar. O fim, abandona-se.

Um olhar retrospectivo sobre a obra e pesquisa que antecede Ressaca se depara com um trabalho cujo “escopo” é definido majoritariamente em relação à arquitetura, principalmente à vertente Modernista e seus subtemas, especificidades, “lapsos ideológicos”, “fracassos”, “promessas por-cumprir”, entre outros. Aos temas circunscritíveis subjazem vontades e interesses desviantes que aparecem pontualmente, dificultando as relações de causalidade entre o trabalho e o discurso. A ressaca propicia tais inexatidões que evidenciam o conforto daquela “fala” com uma mensagem positivada, uma ambição crítica inteligível, um fim. A ressaca também possibilita um desfazer momentâneo de associações prescritivas ou analogias metafóricas, gerando um estado/espaço de indeterminação e proposição.

O equilíbrio entre hiper-determinação e imprevisto é subjacente a grande parte da produção de Lucas Simões. Se, por um lado, as suas peças começam da exatidão extrema do grid vetorial do CAD (Computer Aided Design), por outro, elas pressupõem as imprecisões da sua feitura manual, a mutação do material ao longo do tempo, a imprevisibilidade do contato com o espectador, entre outras. O grande rigor projetual inerente às peças é aquilo que permite que esses imprevistos-esperáveis/desejáveis sejam potencializados. Deste modo, a “obra finalizada” não representa o instante em que o artista “perde o controle” do trabalho face às contingências do real, ao invés, denota apenas o desenrolar de acontecimentos que foram previamente calculados e outorgados ao trabalho.1

Nas suas instalações de grande escala, Lucas Simões engendra situações onde o movimento do visitante pelo espaço de exposição pressupõe uma reconfiguração do trabalho; seja ela resultante de um “confronto” físico entre o sujeito e a peça ou de uma mutação radical da percepção do trabalho de acordo com o posicionamento daquele que o observa.2 A quase inevitabilidade da “participação” afasta qualquer paternalismo de uma experiência “interativa” edificante. Na vivência espacio-temporal das instalações de Lucas Simões, a certeza do grid projetual desfaz-se, torna-se vórtice, labirinto;3 cria lugares marcados por uma tensão subliminar e ambígua, entre o ameaçador e o lúdico, onde se confunde o que controla e o que é controlado; declara o seu perigo de ruptura iminente e o seu equilíbrio precário;4 remete ao vocabulário visual e experiência que herdamos das ruas e cita a tensão entre as noções idealizadas do espaço e a realidade de sua manifestação física e apropriação quotidiana.5 Circular pela sala de exposição é contribuir para a permanente reconfiguração ou até mesmo a “destruição” do trabalho,6 mantendo-o num limbo entre a ruína e a construção.

Embora na maioria dos trabalhos de Lucas Simões seja possível apreender uma escala arquitetônica, a miniaturização e o gigantismo são qualidades inerentes às suas peças escultóricas. Tais esculturas estruturam-se a partir da intersecção de dois tipos de operação; a apropriação de objetos e a exploração de determinados materiais que leva à criação de novos artefatos. Através de ponderadas combinações e justaposições, Lucas cria composições que amplificam as “vibrações” de cada uma das partes, inten- sificando os limites formais de cada elemento, de modo a possibilitar a emergência de outras narrativas que lhes são inerentes mas que permanecem adormecidas sob os seus “usos”. A permutabilidade de escalas faz com que o sujeito “meça” estes trabalhos através de uma ampliação ou miniaturização do seu próprio corpo. A possibilidade fictícia de percorrer as topografias7 ou de habitar os proto-monumentos8 e edifícios moldados por Lucas Simões é contrariada por uma dimensão encerrada que as peças parecem conter, algo a que não temos acesso, que apenas podemos entrever e supor.

Os objetos que Ressaca traz9, conjugam uma série de operações recorrentes na pesquisa escultórica do artista (tais como o uso de materiais leves e frágeis que impõem formas aos materiais aos quais associamos solidez, peso e permanência; a importância da gravidade, do equilíbrio e do vazio, entre outros) com um conjunto de decisões formais que apontam para uma equação até então inédita na prática de Lucas Simões. Mas o estado de ressaca impossibilita um discurso interpretativo ou prescritivo que venha “domesticar” tais peças, já que elas próprias reivindicam uma existência mais opaca e menos subserviente a temas e rótulos. À inviabilidade de conclusões, a ressaca apõe a certeza do discurso que dá espaço à indeterminação projetiva e que antecipa e incita imprevistos desejáveis. O fim, abandona-se.

 

As notas descrevem trabalhos de Lucas Simões, os títulos destacados correspondem às obras da exposição Ressaca:

1. Engessados, 2014 - Esculturas de gesso frágil que reinterpretam a obra “Bichos” de Lygia Clark como se estes estivessem paralisados e fossilizados no gesso. As peças estão dispostas numa superfície abrasiva onde público pode manipula-las, o atrito entre a superfície e o gesso desgasta as peças até ao seu completo desaparecimento.

2. Ressaca, 2018 – Instalação composta por 52 painéis metálicos articulados entre si, cada um é total ou parcialmente encerrado com materiais tais como: aço, PVC, chapa perfurada de madeira, espuma, telas de aço, tela de mosquiteiro, policarbonato alveolar (que remete ao plano translúcido que delimita todo o perímetro da galeria). Cada painel possui 2 rodízios giratórios fazendo-os deslizar sobre o chão e garantindo que o conjunto possa ser reconfigurado pelos visitantes. Os 65 metros de comprimento deste trabalho correspondem à linha de divisão entre o terreno da Casa Triângulo e o espaço público.

3. Caixão Perdido, 2012 – Labirinto cuja planta resulta da decomposição de um grid ortogonal justaposto a um espaço de formas e cotas variáveis. A instalação ocupa um espaço então recém-descoberto resultante da quebra de algumas paredes do edifício. Site-specific realizado no atual espaço do Pivô, Edifício Copan.

4. Grave Gravidade, 2016 - Muro de blocos de concreto construído sem fundações, sem estrutura e onde o rejunte é substituído por camadas de espuma. Uma área de perigo é delimitada ao seu redor pois possui um risco real de desabamento.

5. quatro cantos entre quatro paredes, 2015 - Projeto de um conjunto de instalações para o espaço público que consiste na em diversas composição de muros brancos cujas disposições geram percursos mínimos e labirínticos com alternância entre espaços protegidos e expostos. A ausência de regras, explicações e monitoramento, dá lugar à possibilidade de uma apropriação franca do espaço pelos cidadãos.

6. Recalque diferencial, 2015 - O chão da sala expositiva é coberto com uma camada fina de concreto sobre um “colchão” de espuma. O peso daqueles que entram no espaço faz com que este chão rache e afunde momentaneamente, voltando gradualmente à sua posição original através da reconfiguração natural da forma da espuma. Ao longo da exposição o chão acumula as rachaduras resultante dos percursos dos visitantes pela sala.

7. Série provável horizonte, 2013 - Objetos de memória tátil, cotidiana, replicados em cimento e sobrepostos em maquetes topográficas de papel.

8. Série Abismos, 2017 – Objetos de concreto e resmas de folhas de papel onde a correlação de ambos materiais se dá através de relações de peso, pressão e gravidade. As peças de concreto, com diferentes formas e texturas, eventualmente irão apresentar rachaduras e trincas dadas pela constante mutação do material e pelas forças e esforços aos quais estão submetidos. A posição dopapel é moldada por essa estrutura rígida.

9. Série you text nothing like you look, 2018 - Série de esculturas cujas peças criam um diálogo entre a matéria que lhes dá corpo e uma série de versos que inspiram a sua produção. Cada uma das peças se origina a partir de uma frase, em sua língua original, que é usada na primeira parte do título do trabalho. Quando a peça é finalizada o artista completa o seu título com um segundo verso em outra língua cuja escolha advém da leitura do trabalho acabado.