SERÁ QUE SOU MEDIEVAL? . BERNARDO JOSÉ DE SOUZA

Será que eu sou medieval?

Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Fancy Violence deu por si na cama, transtornada sob os lençóis manchados de um vermelho intenso, encarnado como o sangue. Pôs-se em pé num átimo, ainda impactada pelo turbilhão de memórias que lhe assomavam à mente em velocidade louca, vívidas como os afrescos, tão aterradoras que até mesmo os defuntos fariam levantar. Na intimidade, entretanto, ela sabia não ser seu destino acabar como um mortal: atravessara os séculos impávida diante das tragédias maiores, sofrendo em silêncio, resoluta em sua missão iconoclasta, fosse ela nobre ou marginal - ademais, seu sangue era de cor negra, e o vermelho só poderia vir da tinta a óleo que vertia de seus pincéis ou de qualquer criatura que cruzara seu caminho inadvertidamente na noite anterior. A mediocridade lhe horrorizava como poucas coisas na vida.

Tentou passar em retrospecto as últimas vinte quatro horas (tarefa insana!), buscando acessar aquela centelha de memória que tudo elucidaria, e quem sabe assim trouxesse paz ao seu espírito indômito, fustigado pelas milhares de noites mal levadas e atrocidades cometidas. Por fim, num lampejo, recobrou a lembrança daquela pintura que de há muito vinha lhe obcecando: As Meninas, de Velásquez.

Adquirira o terrível hábito de destruir obras-primas ainda na infância, quando passeava pelo Grand Sablon ou qualquer gabinete de curiosidades que lhe parecesse aviltante, marcado pelo gosto infame de um desavisado aristocrata. Mas no caso em tela, a pintura de Velásquez, meu Deus!, a razão haveria de ser outra, pois aqui não tratava-se de repúdio ao mestre, ao contrário, a ele dedicara dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos de sua angustiante aventura neste planeta. Entretanto havia algo, sim, algo que de imediato disparava seu coração ao contemplar aquela obra: seria ódio ao gênio inalcançável ou repulsa à soberba e feiura daquelas meninas anãs? Absolutamente. Era o espelho, sem sombra de dúvidas: a terrível mirada daqueles cavalheiros que lhe punham em face ao desconhecido, àquilo que lhe escapava à visão, o perigo atrás da porta, o olhar de quem esconde-se por detrás da balaustrada, ou do biombo, fazendo troça de sua figura, ora bela, ora atroz. Irremediavelmente, detestava tudo que não fosse frontal.  A pior tragédia, se vista de frente, tinha o condão de revelar a brutalidade humana, mas o golpe, ah, o golpe pelas costas fazia ruir qualquer hombridade, vestígio de ética e coragem.

Foi neste momento exato que uma imagem fortuita veio à tona e lhe catapultou ao passado remoto: encontrava-se em sua casa, relendo a Metamorfose de Franz Kafka diante da lareira, donde avistava em primeiro plano a imponente Grand Place. Bruxelas jamais estivera tão negra quanto naquela noite em princípios do século XX; as fachadas góticas sempre lhe apaziguavam o ânimo: sua geometria estudada e sua organicidade capazes de implodir a forma em um ensemble tão dinâmico quanto perene ecoavam a genealogia do universo - Pitágoras e misticismo em um só gesto. E assim refletiu sobre a natureza das coisas híbridas; sobre o quanto há de matemática na geologia, nos fractais que em desordem dão sentido ao caos em suas belas formas, voluptuosas, é bem verdade, embora jamais reconhecíveis. Diferença e repetição. E assim ela caiu num sono profundo, uma vez mais nos braços de Morfeu.

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Não existia na casa um relógio que funcionasse. O celular que fazia as vezes de alarme fora destruído por um paquiderme qualquer na noite anterior. Haveria, portanto, de confiar em seu relógio biológico, o qual de quando em vez falhava.

Naquela manhã, todavia, ao despertar de sonhos inquietantes, Rodolpho Parigi deu por si em seu atelier, completamente nu: uma revoada de libélulas lhe impedia a visão do todo, e como se estivesse numa tempestade no deserto, removeu a poeira dos olhos espalhadas por esses seres invertebrados, e enxergou-se por completo diante do espelho, tal qual pela primeira vez. A imagem era de um corpo masculino, belo como Adônis, o seu próprio, mas ainda assim algo lhe parecia fora de lugar. Asas pronunciavam-se timidamente desde suas costas, os dedos avermelhados, ainda encardidos de tinta. Ou seria de sangue?

Instintivamente, deu início a um desenho antes jamais divisado, uma forma única que transmutava-se em muitas, umas diversas das outras, as quais jamais lograria repetir igual caso desejasse - mas tampouco isso lhe causava medo. O que ele via era um corpo estranho, alienígena, dono de uma arquitetura fabulosa, sanguíneo como apenas o nanquim poderia engendrar; uma espécie de célula, proto-criatura que movia-se por vontade própria, desafiando o criador, denunciando assim sua própria ambição por controle e autodeterminação. Mas logo a seguir sobreveio o desejo destruidor - a plasticidade do acidente, como diria Catherine Malabou -, fazendo terra arrasada de toda uma estirpe, uma linhagem de obras reconhecíveis em sua estética comum, porém desalmadas, desprovidas do ânimo que apenas o júbilo criativo/destrutivo pode oferecer à audiência. E foi neste momento que evocou os mestres, sobretudo Michelangelo e suas figuras arruinadas, depauperadas, mortos-vivos em plena luz e sombra.

E assim esqueceu-se do ontem, regressou milhares de anos a um ponto zero, ancestral, zona que antecede a Criação, e por conseguinte ao Deus criador. Liberdade suprema, pensou Parigi: e assim o artista recriou não apenas a mulher, mas também o homem e o transexual.

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Havia um corpo estirado no vestíbulo. Todos faziam olhos brancos ao ente desalmado que ali jazia. Era impossível àquela altura definir a linhagem do animal: seria homem, mulher ou bicho, travesti, amarelo ou mulato, branco, pobre ou louca? Ninguém saberia dizer.

Mas Fancy Violence atravessou aquele saguão, marchando sobre o corpo como quem percebe o presente apenas como miragem, intuindo que o tempo futuro lhe reserva surpresas ainda mais reveladoras que aquela recém superada. Pé ante pé, seguiu firme e forte pela Avenida Paulista, e num piscar de olhos esqueceu a obra que acabara de destruir com pinceladas certeiras, embora tão delicadas quanto a mão que acaricia o volume sob o manto sagrado.

Não há medo que faça o artista retroceder. O poder da destruição - profanar sua própria obra - revela-se ao fim o gozo maior.

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Naquele dia decidiu por vontade própria não acordar. Levitaria, apenas, mantendo-se assim acima dos dissabores mundanos. Gostaria de ser apreciado em sua integralidade, fosse qual fosse o nonsense pronunciado pela boca dos mortais que mal entendiam a virilidade criativa concedida por sua natureza híbrida.

Pairava cercado dos seres aos quais dera vida. Monstros ou coisas, estavam vivos, a despeito de tudo e todos. E eles velavam seu corpo.

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As vezes eu amo e construo castelos
As vezes eu amo tanto que tiro férias
E embarco num tour pro inferno

Será que eu sou Medieval?
Baby, eu me acho um cara tão atual
Na moda da nova idade média
Na mídia da novidade média

Cazuza

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Embalados por uma canção marginal, atentamente guardados pela sentinela magnânima ao alto da galeria - O Grande Rosto, belo como ninguém -, ambos, Fancy e Rodolpho, dormem o sono dos justos, lado a lado. E assim seguiram-se anos à fio, até que despertasse o artista, ensandecido como William de Kooning pintando em seus derradeiros anos, visceral como apenas David Cronenberg saberia ser, apaixonado tal qual Jean Genet em seus devaneios na prisão. Mas havia uma banda, ao fundo, tocando afinada em ritmo violento e plena transgressão, ecoando vozes guturais em arquiteturas clássicas, tais quais as asas das libélulas em sua escandalosa geometria: o pictórico do urucum mesclando-se ao pó divino que emana das figuras aladas sobrevoando um universo em explosão.

Mas pasmem, o artista dormiu com todo o barulho ao redor.   


Bernardo José de Souza