THE PINK PANIC SHOW . AGNALDO FARIAS

The Pink Panic Show
Rodolpho Parigi

E então Rodolpho nos traz o rosa. Não sua versão floral, abrandada pelo branco, propiciadora de uma luz delicada, própria para o repouso das retinas e os papéis de embrulho dos presentes dos dias dos namorados, evocadora de uma infância posta em conserva, quando ignorávamos o mundo lá fora e vivíamos exclusivamente para nós. Rodolpho nos traz o rosa pink, o rosa choque, cheguei, brega e berrante. Chamada tecnicamente de magenta, Rodolpho faz um show calcado nessa cor estigmatizada por alguns dos pintores modernos, nomeadamente os que defendiam o uso das cores provenientes da natureza ou a pureza das cores primárias, como definiu o grande holandês Mondrian em anos bem recuados. Aqui no Brasil, somente lá pelos anos 1950 passaram a aceitar as cores industriais. Ainda assim, com reservas. Afinal, como asseveravam nossos artistas concretos, a cor não devia emocionar, ultrapassar o âmbito dos olhos e falar aos nossos sentimentos e, menos ainda, às nossas vísceras. Essa formulação pegou tanto que ainda hoje repercute naqueles que acham que a arte não deve ceder ao feerismo da vida contemporânea, aos seus exageros e dramatismos telenovelescos, à velocidade do dia-a-dia aumentada pela gritaria das embalagens das mercadorias, das empenas de prédios e out-doors com suas imagens pretensamente sedutoras, do efeito doppler dos rádios dos carros que riscam incessantemente a camada mais próxima da paisagem urbana. Mas não Rodolpho.

Como a maioria de nós, Rodolpho Parigi gosta tanto de Bach quanto do baião; é afeito às noticias que nos chegam das passarelas de Paris, Nova Iorque e Milão como também aos produtos das rendeiras nordestinas; gosta dos pratos de descrições rebuscadas que frequentam os menus dos restaurantes empoados ao “camarão ensopadinho com chuchu”, o mesmo amorosamente confessado pela nossa Carmem Miranda. Mas Rodolpho é um virtuoso e, depois dos seis meses passados em Paris no primeiro semestre do ano passado dentro do programa de residência Cité des Arts, prêmio que a FAAP oferece aos seus melhores alunos, um tanto quanto erudito. A possibilidade de visitar museus em profusão, conferir de perto e tirar a limpo obras que ele conhecia e cultuava a partir de reproduções, foi uma medida oportuna. Permitiu-lhe, ele que conheceu um sucesso rápido e surpreendente, que tirasse férias dele mesmo.

Hoje, muito mais do que no passado, quando o mercado beirava a inexistência, o reconhecimento precoce pode truncar o processo de  maturação de um artista, levando-o a responder antes as demandas externas do que as suas próprias, sem cuidar que o público é um hipócrita que reage impulsivamente em favor de novidades, exigindo produtos semelhantes aos que consagraram o artista, o que o faz correr o risco de, no futuro, ficar sem obra consistente e sem mercado. Dono de uma desenvoltura técnica invulgar, Rodolpho foi descoberto em 2007 quando ainda estava no curso de artes, com suas telas e intervenções aparentadas com o grafitti, embora também referidas, em proporções inapreensíveis, a obras como a de Adriana Varejão, Luiz Zerbini, Jeff Koons, Matthew Ritchie, Franz Ackerman, Julie Mehretu e, acima de tudo, até porque vem de antes dos seus estudos formais, das minuciosas ilustrações que os naturalistas fazem de plantas e organismos e que fazia as delícias de um garoto curioso.

As telas e intervenções realizadas nas paredes que lhes eram oferecidas caíram no gosto do público que então descobria o grafitti, muito embora o diferencial do trabalho de Rodolpho estivesse no elenco mais amplo de referências, que lhe garantia frescor e potência sem esbarrar nas soluções palatáveis e decorativas da maior parte de seus colegas de adolescência. Ainda assim, como não se deixar impressionar pelos arroubos formais, uma energia furiosa materializada em fragmentos e estilhaços coloridos, planos pontiagudos, sobrepostos e justapostos em direções e vetores divergentes, avançando por paredes e tetos, afrontando a ortogonalidade impassível e subserviente da arquitetura? Uma sedução similar derramava-se sobre o espectador sob a forma de telas e intervenções branco e preto ou coloridas de motivos orgânicos. Hastes, caules, espádices, pedúnculos, nervos, tecidos esponjosos, músculos e ossos, um entrelaçamento entre os universos botânico e animal, uma confusão de elementos dessas duas ordens a sugerir, não tão ostensivamente como agora, a íntima relação entre tudo aquilo que exsuda vida. Desde do início, mesmo o olhar desavisado percebia uma relação entre a energia despendida pelos gestos amplos e intensos do artista na execução de seus trabalhos e o componente erótico aliado a elementos mais claramente sexuais que eles apresentavam; as obras celebravam a energia que flui por todos organismos fazendo-os vibrar, atrair-se mutuamente, colear-se, interpenetrar-se, fundir-se uns aos outros, copulando e produzindo, na fricção facilitada por suas densas secreções, novos organismos. Tudo o que existe, adverte-nos o artista, não é, está sendo; em estado de transformação, transmutação perpétua.

Atraque, título e imperativo que comanda essa exposição, indica sem rebuços essa direção recente tomada pelo artista. A opção por várias tonalidades de um mesmo rosa acendido como cor única de todos os trabalhos expostos, traz como protagonista uma cor artificial, com o brilho das imagens projetadas para capturar nossos desejos, com o mesmo poder de transformação da aparência do mundo obtida pelo celofane com que se embrulha o Sonho de Valsa, aquele que, quando crianças, mascarávamos nossos olhos, lembra? Nessa exposição, o rosa, tornado poderoso, progride ao roxo e ao preto, travando-o. A pele, os tecidos labiais, as comissuras acetinadas do corpo, lembra-nos o artista, são róseos. Rosa pode ser a folha cardióide e a flor carnosa desavergonhadamente ereta do antúrio ou a orquídea inventada pelo artista. Senão rosa, roxo o cu, eternizado por Rimbaud no soneto a ele dedicado (“Obscuro e enrugado como um cravo roxo,/ele respira, humildemente escondido em meio ao musgo…”), e que em uma das telas o artista substitui pelo rosto de uma mulher.

Rosa denso e compacto é a cor da caixa, aquário, urna de acrílico, artefato semelhante, não na cor, por certo, ao de qualquer museu de história natural, no qual vemos, entre borboleta e crânio e mãos, uma cabeça de pescoço modiglianesco, um manequim, simulacro humano feito para vitrines, com olhos opacos. De uma de suas paredes, como que transbordando, apoiada ao chão como os quatros pés de metal – rosa – que as sustenta, um galho retorcido: extensão e âncora da figura? Essas, como as outras obras e conjuntos de obras expostas, não desviam de um mesmo eixo: o exame sistemático da sexualidade como denominador comum entre seres, a afirmação da vida como um subproduto de um estado constante de intumescência dos seres através de soluções homólogas ou trocadilhos visuais.  Veja-se a apropriação da memorável imagem de Jean-Paul Goulde da cantora/atriz jamaicana, Grace Jones, na capa do seu álbum Island Life, de 1985. O desenho do corpo longilíneo, negro luminoso e retesado de sua pose segurando o microfone, inscreve-se suspenso numa caixa vazada, como um momento apreendido por um cientista, como o corpo de prova  flagrado pelo olhar escrutinizador de um microscópio. Jones, que com essa foto obteve a proeza de se converter fotografia de uma escultura de si mesma, surge como um prolongamento natural de um galho de uma árvore que, variando de ramos torneados a outros que se abrem em tecidos crespos, ramifica-se em antúrios, cogumelos, orelhas e seres que não sabemos se imaginários ou amplificações monstruosas de criaturas minúsculas, sendo um deles a reprodução de um dos demônios que atormentavam Santo Antônio, na visão de Martin Schongauer. 

A multiplicidade de referências contribui para a conclusão que o artista se pauta pelo nivelamento entre elas, não importa sua procedência, uma tão afirmação arbitrária quanto qualquer lógica que se pretenda absoluta, e que ele reitera, para pânico dos espíritos acomodados, através do emprego desabusado do rosa. A monumental Magenta Exotic, de dois metros por quatro e noventa, destaca novamente Grace Jones, em capa de um outro álbum (Nightclubbing), ao lado de Bianca Exótica, conhecida travesti da noite paulistana, amiga do artista. Rodolpho reúne gentes, plantas e animais num mesmo painel, convivendo numa arquitetura desconexa, uma sucessão de ambientes arrevesados, uma ordem além da ordem pacífica, estável, cuja existência muitos querem, por força, acreditar. A mostra fecha com outra pintura de grandes proporções: Magenta bacanal, um tour de force cujo título não deve enganar o leitor, levando-o a pensar que se trata de algo com conteúdo explícito, um produto de realismo chulo. Rodolpho nunca incorre na apologia, no discurso publicitário de uma opção sobre estar no mundo. Nesta tela, com ressonâncias do Bouguereau de Dante e Virgilio no inferno, tela que, por sua vez, ecoa soluções de mestres barrocos e maneiristas, encontra-se a representação de um emaranhado de corpos, um enunciado convincente acerca da força de atração que une as coisas vivas, fazendo-as pertencer umas às outras. O imã irresistível acionado por nossas vísceras, músculos e pele e que nos predispõe ao contato com o outro.