UM DJ VISUAL . FÁBIO CYPRIANO

Um DJ visual

A colagem “Metadilema”, de Rodolpho Parigi, que configura uma das séries de sua exposição “Concrete Blonde”, na galeria Nara Roesler, em São Paulo, parece um tanto distante da complexidade dos trabalhos em grandes dimensões que levaram o artista a ser reconhecido como um dos “novos expoentes da pintura”. Contudo, esses “Metadilemas”, que em verde e rosa cítricos e ofuscantes, fazem referência explícita aos emblemáticos “Metaesquemas”, de Hélio Oiticica, apontam alguns procedimentos comuns em sua rápida carreira, já que Parigi se formou na Faap há apenas dois anos.

Em suas pinturas, especialmente na série “Limite” (na exposição presente em “Limite nº 8"), percebe-se uma ação de “samplear” imagens, ao mesclar referências de artistas como Jeff Koons, na série de pinturas “Easyfun – Ethereal”, com formas orgânicas _muitas delas relacionadas a partes do corpo humano, como nas vísceras aparentes de alguns trabalhos de Adriana Varejão,

além de outras geométricas, um tanto parecidas com as encontradas nas pinturas de Julie Mehretu ou na combinação cromática de Beatriz Milhazes. Esse procedimento tem muito a ver com a prática dos DJs e dos surfistas na web, que organizam percursos sonoros ou visuais a partir de outras obras, num processo de apropriação e reconstrução que o pensador francês Nicolas Bourriaud denomina “pós-produção” para certo tipo de arte contemporânea. Para ele, “a prática do DJ, a atividade de um ‘web surfer’ e a dos artistas da pós-produção envolvem um mesmo tipo de figura na produção de saber, que se caracteriza pela invenção de itinerários através da cultura. Os três são ‘semionautas’, que em primeiro lugar produzem roteiros originais entre os signos” ("Postproducción", Adriana Hidalgo Editora, Buenos Aires).

Nesse sentido, Parigi parece criar em suas obras uma espécie de portal, no qual vibram, às vezes tal qual luminosos, suas referências, em geral a partir de um ponto de fuga, não em uma perspectiva clássica, mas a do caos. Seus trabalhos da série “Limite”, por exemplo, costumam ter um centro em expansão, que confunde o olhar do espectador, como se registrasse o próprio Big Bang. E essa explosão não parte de uma questão cosmológica ou espacial, mas sim corpórea: muitas das formas orgânicas nas pinturas de Parigi são criadas tendo como referência fotografias de um exame de colonoscopia. E as partes do corpo humano jorram como em um movimento de gozo e impregnam a tela em cores fortes, criando a vibrante energia de suas pinturas.

Então, se os “Metadilemas” não possuem a mesma complexidade visual das pinturas da série “Limite”, elas geram a mesma vibração: é só se perceber como há algo aparentemente em expansão em seu traçado geométrico, além das cores cítricas, que são bastante intensas. Nessas obras, também se percebe que a citação a Oiticica não é apenas formal, já que em ambos se observa, cada um a seu modo, uma forte preocupação com o uso do corpo. A utopia possível na posição “socioambiental” de Oiticica é a própria experiência que se observa nas telas de Parigi.

No entanto, “Metadilema” também é representativo de uma nova fase da obra de Parigi, com o uso predominante de formas geométricas, que teve início no ano passado com a pintura “Concrete”, e que, nessa sua primeira individual, culmina em “Waves”. Maior obra da exposição, esse trabalho foi totalmente projetado em seu computador, mas retrabalhado durante um mês e meio até chegar a sua virtual forma final. Mais dois meses e alguns assistentes foram necessários para que a pintura chegasse ao seu formato definitivo. Esse procedimento não é inusual ao artista, mesmo que seu método varie muito conforme a obra. Em geral, Parigi começa suas pinturas na tela, depois as fotografa e as altera em algum programa de computador, projetando como deve ser seu formato final, usando o Photoshop como se fosse seu pincel, num processo obsessivo que alterna os dois procedimentos à exaustão. Essa recorrência à fotografia, aliás, pode ajudar a entender a transformação do orgânico para o geométrico em suas novas obras.

No sistema digital usado pelas novas câmaras fotográficas, as unidades mínimas, os pixels, possuem formatos geométricos. Nas explosões que provoca nas telas em sua nova fase, poderíamos dizer que Parigi chega a uma aproximação microscópica, revelando então as unidades mínimas que constituíram seus antigos formatos orgânicos, não totalmente abandonados. Com isso, surge no roteiro do “DJ visual” uma nova constelação, que tem como referência obrigatória a produção construtiva brasileira, de onde surgem os “Metaesquemas”, que agora são apropriados por Parigi, nas cores cítricas, especialmente a rosa, constante em suas pinturas.

Também estão na mostra duas séries de desenho, uma sobre papel branco, intitulada “Florais” e outra, sobre papel preto, denominada “Gold Maps”. Historicamente, o desenho caracterizou-se como o estudo para se construir uma outra obra, seja pintura, escultura ou, num universo mais contemporâneo, a instalação. De certa forma, Parigi mantém em seu trabalho essa característica, como que revelando nos “Florais” algumas figuras ou situações que em suas pinturas estão presentes de forma nem tão distinguível. Ao expô-las, contudo, o artista rompe com a divisão entre estudo e trabalho, como tem sido, aliás, uma forte tendência na produção contemporânea. Já nos “Gold Maps”, o artista cria um imaginário muito próximo ao alcançado na série “Limite”, sem o uso da cor, mas com o mesmo centro que se expande como em uma explosão, e que se redireciona em vários sentidos.

Finalmente, e retornando-se novamente ao “Metadilema”, aí se encontra outro importante elemento constante nos trabalhos de Parigi: o preciosismo. Nesta obra, a sobreposição dos elementos geométricos é tão perfeita, que não eles não parecem terem sido feitos como colagem. Essa ilusão entre real e construído vai ocorrer também na série “Limite”, quando há momentos em que a pintura parece fotografia. Com isso, Parigi aponta que, mesmo nos momentos tecnológicos da “pós-produção”, a fatura manual, com a sensibilidade do toque e da pele, não pode ser abandonada.

Revista Trópico, 17/03/2009