A NATUREZA DO ATRAQUE . LUÍSA DUARTE

A Natureza do Atraque

Em um cenário como o da arte contemporânea brasileira, toda produção que de alguma forma não possui laços evidentes com uma herança da passagem do moderno para o contemporâneo, tal como se deu nestas paragens no campo das artes visuais, ou seja, herdando as lições de momentos como concretismo, neoconcretismo e, ainda, aquelas de certos nomes fundamentais surgidos na década de 1970, com raras exceções, quem se atreve a fazer um caminho que parece, numa primeira visada, driblar tais referências costuma ter uma acolhida difícil pelo olhar criado em nosso solo.

A produção de Rodolpho Parigi pode encontrar essa resistência, mas é também dessa dissonância, do fato de habitar um ponto fora da curva, que nasce a sua singularidade e a sua força. Desde a paleta de tons fortes, cítricos, vistos no design gráfico e na publicidade, passando pela apropriação ruidosa que mescla ícones da cultura pop com traços que referenciam um registro “culto” e, ainda, a criação de um mundo que exala uma atmosfera de sexualidade, quase sempre excessiva, em uma espécie de pop barroco do século XXI, quase tudo ali caminha na contramão da sobriedade. Tal percurso, entretanto, ocorre tendo como morada a pintura, a tradicional e antiga pintura. Parigi realiza um trabalho high-tech fazendo uso do low-tech.

Em uma obra cujas influências percorrem um arco que passa por Julie Mehretu e Grace Jones, Adriana Varejão e Dzi Croquettes, Tropicalismo e Bach, e nos faz lembrar de um avaf, tudo sem estabelecer hierarquias, Parigi constrói um universo cuja potência visual promove encontros improváveis. Personagens, ideias e imagens díspares se encontram em um mesmo espaço. É próprio da arte inventar mundos antes inexistentes, tendo como ponto deflagrador este que temos à nossa vista diariamente. A dobra está na capacidade de nos tirar da opacidade entorpecente da realidade tal como nos aparece, introduzindo uma transfiguração que desestabiliza o senso comum e devolve o que conhecemos de forma nunca antes vista. Note-se que o artista realiza essa operação tendo como traço de fundo um toque de humor, como se tivesse a rara sabedoria de rir de si mesmo. Sendo séria, rigorosa, mas não se levando tão a sério a ponto de temer alçar voos que não rimem com o seu entorno. O que não falta no cenário ampliado da arte são trabalhos tão circunspectos quanto anêmicos. 

Um dos pontos altos deste livro é mostrar o processo necessário para que seja possível erigir tal conjunção de referências múltiplas. Ao longo destas páginas, constata-se que Parigi é, a um só tempo, um arquivista e um artesão. Ou seja, há um cruzamento entre o tempo do pensamento e do acúmulo de referências, e um outro da ação, no qual ocorre o atraque, simultaneamente preciso e instintivo, com o espaço em branco da tela ou do papel.

Atracar: aproximar embarcação do cais ou de alguma embarcação por meio de arpéu, croque, cabo ou espia, amarrando devidamente; pegar-se corpo a corpo; engalfinhar-se; agarrar (alguém) para entabular conquista amorosa; pôr-se a comer (algo) com apetite; atirar-se sobre. O dicionário mostra a pertinência da palavra que dá nome ao livro. Do verbo atracar, atraque não só exprime o momento de alinhavar/amarrar a obra devidamente ao longo de uma publicação, mas, mais que isso, exala o cheiro, a textura, o ethos mesmo que conduz essa obra quando lembra que atracar é atirar-se sobre algo com apetite, entabular uma conquista amorosa, pegar-se corpo a corpo. Não só a relação do artista com o seu trabalho constitui um atraque, como o resultado final surge aos nossos olhos evocando cores e formas de alta voltagem que deixam marcas claras dessa natureza epidérmica constitutiva do trabalho. Não à toa já se afirmou que suas telas são “vermelhas e suadas”. Sem transpiração não há atraque. Isso pode valer para a arte, isso vale para o sexo. 

Botânica, corpo, música, sexualidade, luz e sombra, tridimensionalidade, animais, todo um arsenal de territórios chama atenção do artista e é por ele catalogado. Como se fosse um material bruto que passa por processos de edição. Cada trabalho traduz uma montagem possível entre tantas outras, tal como um filme. Se as pinturas da série Magenta Exotic surgem ruidosas, tomadas por sobreposições que somente aquele cujo olhar passe a bem conviver com a profusão de cores, informações e formas poderá detectar, a série Magenta Drawings vem ao mundo na forma da delicadeza exata, que em meio ao alarido prefere somente murmurar. Continuam presentes os ícones da cultura pop, a perseverança por dar forma e perenidade a formas orgânicas que são, em realidade, fadadas ao desaparecimento, bem como o virtuosismo do traço. Ou seja, a obra segue um fio condutor poético coeso e que pode ganhar vida de diferentes modos, sem por isso perder de vista o seu lastro; bem como tal amplitude demonstra as inúmeras possibilidades abertas para o futuro do trabalho desse artista ainda jovem, com uma produção já adensada.

 

Atraque é a síntese de um trabalho em processo marcado por Apolo e Dionísio, pelo deus da beleza, da temperança, dos sonhos, e aquele do vinho, da embriaguez, da vida errática. Nessa simultaneidade, que conjuga o trabalho diário, demorado e virtuoso com os impulsos mais carnais, vem à luz uma obra corajosa, sem pudores, que parece pedir para que cheguemos mais perto, sussurrando em algum canto, ao pé dos nossos ouvidos, come and touch me.