PAINTING THAT ROCKS! . CAMILA BELCHIOR

Painting that rocks!

O impacto e o dinamismo das pinturas de Rodolpho Parigi brotam de muitas horas de trabalho em um pequeno estúdio em São Paulo ao som do “White Stripes” e de “Yeah Yeah Yeahs", abastecido por pratos generosos de cozinha caseira italiana. Não poderia ser de outra maneira. Esses trabalhos intensos, e às vezes difíceis de absorver de uma só vez, não poderiam ter sido criados ao som de Vivaldi ou de Billie Holiday, ou inspirados por sushi; "they rock". Como ele diz: "eu crio um ambiente para pintar, e é refletido em meu trabalho... eu pinto com o estômago, é algo visceral."

Conheci Parigi há alguns anos. No seu misturar de cores e idéias em busca de função e formato, o artista me lembrou a peça “Seis personagens em busca de um autor”, de Pirandello. Exposto a trabalhos de pesos pesados, como Franz Ackerman, Jeff Koons e Anish Kapoor, Parigi defini sua relação com o espaço, a cor e o volume, respectivamente. Consequentemente, considera esses gigantes influências centrais do seu trabalho atual. O impacto de seu contato com o uso da linha de Julie Merehtu e Matthew Ritchie, não deve passar desapercebido, sendo que fala-se de um elemento definidor no trabalho de Parigi.

Existem três tendências principais na mais recente produção de Parigi: expansivas pinturas em preto e branco sobre paredes; formas anamorficas monocromáticas em pequena e média escala sobre tela; e em grandes dimensões onde as formas anteriores são fundidas e remodeladas, gerando superfícies explosivas gerenciadas dentro dos limites da tela. Nos três casos a fonte é mesma. O profundo interesse e fascinação de Parigi pelas entranhas, desenhos detalhados de anatomia e pornografia, transparece em seus trabalhos. Tais referências não surgem exatamente reproduzidas na obra, elas são digeridas e absorvidas com a intenção de criar algo inspirado e associado ao real mas que seø existe dentro dos limites da tela.

A série nas paredes funcionam como o outro lado da moeda em relação às telas de grande formato. Sobre a parede, Parigi se dedica à tinta preta, normalmente sobre superfícies brancas, e expande-se até onde julga apropriado. O artista chama essa série de “Apropri_ação", o que reforça a conquista e a delimitação ativa de territórios. Sobre tela, Parigi explora a justaposição de cores vivas e a tensão que surge dentro das delimitações da tela. A imagem explosiva nunca respinga longe o suficiente, sendo que a borda da tela é o limite da sua realidade; se não fosse restringida ela poderia expandir-se mais. Tal tensão reaparece em sua pintura de médio formato através da escolha cuidadosa de cores que utilizam-se da dinâmica entre elas ao contrair e expandir os componentes que formam. Parigi sente-se tentado a explorar a fusão entre as condições dos murais e das pinturas em tela em uma nova série onde as explosões vão alem das limitações das cores e a parede vai além  de expansões monocromáticas.

Parigi não conta com a segurança de seguir uma imagem projetando-a sobre a tela ou parede, mas acredita na improvisação e no instinto que surge ao confrontar superfícies, rítmica e estoicamente, até atingir a fluidez de um corpo, e o impacto do ‘rock n’ roll’.

 

Camila Belchior

 

*Texto publicado na revista “NY Arts Magazine”. Edição Jan/Fev 2007