-
Thix — “caráter destrutivo”, “alegorias de si” e outras feições da “transitoriedade” barroca
1. “Quarto de não dormir”
Na “sala de não estar” da Casa Triângulo, Thix rearranja carcaças de móveis: cada uma delas é um fragmento com o qual recompõe uma nova totalidade, criando teatralmente a atmosfera onírica de um “quarto de não dormir”. Ao adentrá-lo, encontramo-nos no limiar entre o sonho e a vigília: entrelugar onde tudo foi pensado para nos tirar da comodidade. A cama sem estrado ou colchão emoldura o vazio — quem quer que nela se atire, há de chocar-se com o chão. O espelho-só-moldura da penteadeira não nos devolve o reflexo distorcido da face; antes, ao encará-lo, temos de nos confrontar com a opacidade própria da parede. Por sua vez, o armário não é mais que o esqueleto do que fora um dia: nada mais pode conter; dele, ninguém mais precisará “sair”: em sua forma agora vazada, tal qual a cama e o espelho, ele contorna e nos expõe o nada.
-
Outras peças do mobiliário, no entanto, preservam lá seus mistérios: no par de mesas de cabeceira, mexas de cabelo pendem como puxadores. Quem quer que ouse bisbilhotar as gavetas, deverá agir com o gesto violento de um puxão. No outro canto do quarto, uma cadeira “cabeluda” espreita: um ser estranho à espera — de quê, ou de quem? No pequeno oratório à la Farnese de Andrade, não há santo a quem se possa rezar; ali, tornou-se um ofertório e um relicário de tetas de borracha. Se aí se evoca algum santo, evoca-se uma mulher: Santa Ágata, martirizada. Cristã nos tempos de imperadores pagãos, passou por diversos tipos de tortura na prisão e, por fim, teve suas mamas arrancadas. Sua iconografia é conhecida por representá-la placidamente oferecendo-as a Deus em uma bandeja, como quem preferiu o martírio a renunciar a própria fé e não se arrependeu.
-
Brigada, 2026 -
-
Passabilidade II, 2026O mobiliário pesado desse quarto, de madeira maciça ou “de lei”, traz consigo a pátina de outro tempo: são móveis “barrocos” ou “coloniais” — um índice temporal que inevitavelmente nos transporta para um espaço sombrio e longínquo... E, talvez, aquele mesmo onde a criança, sentindo-se encarcerada em quarto e corpo de menino, sonhava ser a mulher que viria a ser. O vestido rosa que tanto desejara, e cujo uso lhe era então proibido, ali multiplica-se sobre móveis, em cabides e autorretratos. Mas é no quadro “A Infanta” (2026) que Thix de fato realiza seu sonho de criança; ali, a artista se reapropria de uma foto da época para repintar-se menina com seu vestidinho rosa: belo gesto de quem se recusa a ser refém do próprio passado e que faz-nos lembrar de um verso de Waly Salomão que certa vez escrevera que “a memória é uma ilha de edição”.
-
Faceshopping II, 2026 -
Pele morta (máscara mortuária da artista), 2026 -
A memória da pele, 2026 -
A beleza é uma armação, 2026 -
Camada morta, 2026 -
-
Faca de não ferir, 2026 -
Réquiem para um homem, 2026 -
Biche (Agnus Guei), 2026 -
Vestígio, 2026 -
Desconhecimento facial, 2026 -
Descarte meu corpo na água / sem pensar nas ondas que vou mover (autorretrato como Ofélia), 2026 -
Véu: Santa Wilgefortis, 2026 -
Momento mara (mesmo morta, ainda flor), 2026 -
Pequenos incêndios em terras onde tentaram nos arrancar tudo, 2026 -
Orquiectomia (natureza morta com ovos), 2026 -
-
Elegia: no vale da morte, as belas mulheres murcharão como rosas, 2026 -
Sufoco, 2026 -
A espera de que algo vá secar, 2026 -
Dupla hélice , 2026 -
-
Gesto femínino (oração para Santa Luzia), 2026 -
Capelinha de melão, 2026 -
Mulher como Lucrécia, 2026 -
Os sonhos em que estou morrendo são os mais belos que ja tive, 2026 -
Chuteiras IV, 2026 -
Infanta, 2026 -
Bijuteria barata, 2026 -
A beleza é uma prisão, 2026 -
-
Réquiem para um nome II (série Bibêlo), 2026 -
É também do Barroco que Thix traz o procedimento pictórico capaz de gerar imagens de alto contraste — o chiaroscuro: efeito que se alcança ao começar a pintar o retrato a partir da “camada morta” — o primeiro esboço em preto e branco da pessoa retratada que atuará como “sombra” subjacente à medida que ela vai ganhando vida a cada camada de cor posterior no processo cuidadoso da “velatura”. O contraste luz & trevas resultante deste processo dá a ver o “conflito” entre humano e divino comumente tomado como um dos temas centrais da pintura barroca, tanto quanto o próprio conflito entre vida e morte que, de certo, deriva do primeiro.
-
-
Mona fico, 2026 -
-
Irmã armada, 2026 -
































