Casa Triângulo tem o prazer de apresentar Quarto de não dormir, sala de não estar, a primeira exposição individual de Thix na galeria, com texto crítico de Maykson Cardoso, e também a primeira em que a pintora lança mão da instalação, do ready-made e do escultórico como meios de expressão para além da pintura. Na sala de não estar da galeria — não lugar que toda galeria é, pois que nelas ninguém habita, mas está sempre de passagem —, Thix rearranja carcaças de móveis: cada uma delas é um fragmento com o qual recompõe uma nova totalidade, criando teatralmente a atmosfera onírica e perturbadora de um quarto de não dormir.
Esse cenário é o centro nevrálgico da exposição, a partir do qual o público é conduzido à recepção das demais obras — todas elas informadas pela inquietante biografia da artista: esse quarto é também aquele onde um menino encarcerado sonhava ser a mulher que hoje se tornou. O vestido rosa que tanto desejava na infância e lhe era vetado, multiplica-se não só nas pinturas, como nos cabides dependurados. Tudo nessa exposição é, por isso, uma espécie de autorretrato; não só pelas conhecidas cenas de teor narrativo em que a artista se autorrepresenta, mas também naqueles pequenos quadros camp em que figuram bibelôs inventados como “alegorias de si”.
Em suas esculturas, vê-se algo semelhante: sua história estilhaçada e remontada. Remontada não porque restitui o estilhaçado à forma original, mas porque lhe confere uma nova, uma outra, configuração. A cartela de unhas postiças agiganta-se e torna-se um móbile semelhante à cadeia de DNA; a crinolina de ferro lembra mais uma gaiola do que a peça estruturante de indumentária. Mas nada disso é capaz de deter a mulher livre que recusa fixar sua identidade à biologia e interroga, como em um belo verso de Raquel Alves: “como desligar a cópia do modelo | se o bicho copula | com a jaula?”.
Desde o processo de começar a pintar um retrato a partir da grisalha — isto é, a partir da “camada morta” e a posterior velatura que confere à sua pintura o contraste do chiaroscuro —, tomando como referência uma pintora de envergadura como Artemisia Gentileschi (1593-1654) ou até mesmo através do mobiliário pesado com que re-constrói seu quarto, Thix atualiza algo da estética barroca.
Marca incontestável do Barroco foi a transitoriedade expressa no lema memento mori — “lembra-te de que morrerás” —, que encontrava sua imagem na vanitas. No trabalho de Thix, a transitoriedade, porém, ganha outro sentido. Se a artista nos lembra da morte — como no quadro em que segura sua cabeça outrora barbada —, é para nos lembrar que pode haver muitas mortes necessárias em uma vida e muitas vidas possíveis após uma morte. Isto é, diferente dos artistas barrocos, que aceitavam melancolicamente a finitude inelutável, Thix aqui nos afirma que é preciso lutar, com unhas e dentes, e de peito aberto, pela vida.
Fragmentos do texto crítico para a exposição de Thix,
“Quarto de não dormir, sala de não estar”, na Casa Triângulo.
Para o texto na integra, clique no link abaixo
