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Apresentação

“Me intriga o que se transmite além da imagem ou do texto durante processos de pesquisa em fontes mais antigas — ao manusear fotos impressas, revistas da época, reproduções de maquetes e desenhos. A leitura de um registro intrínseco a um tempo que deixou de existir há não muito.

 

Então nesse processo me alimento não somente do conteúdo da pesquisa, mas do tempo do material pesquisado, o tempo da impressão, do papel, do grão, do prateado da fotografia – e essas imagens, este saldo de um tempo analógico, me vendem a ideia de que era possível acreditar em um futuro projetado– como, por exemplo, nos casos da pesquisa sobre Brasília, as edições da revista Módulo, de Oscar Niemeyer ou nas imagens do Arquivo Brasília.

 

Talvez acreditar num "futuro" seja, para nós, o que acreditar nos mitos foi para sociedades antigas. Por exemplo, o Egito organizava sua sociedade em torno de seus mitos — em ciclo, em permanência, na repetição do Nilo e de Osíris. A sociedade capitalista contemporânea se organiza ao redor de uma direção oposta: o inédito. Talvez esse seja o mito moderno estendido até hoje — não um deus, um rio, uma travessia: o Futuro.

 

Esta leitura não traz nenhuma inocência — Há projetos em todas as fases de realização: o que não há é a ausência de futuro — o futuro chega. Mas chega diferente, como toda grande expectativa é diferente do seu resultado, do mesmo modo que conceber uma escultura é diferente de executá-la. Aquele futuro é o real possível, acontecendo na nossa frente — um presente do futuro.

 

E então, o que interessa não é este "mito" em si, mas o mecanismo que o solidifica: a imagem. A foto documental cria o futuro pela prova — isto já está acontecendo. A maquete facilita pela promessa — isto vai existir. Duas autoridades diferentes, o mesmo efeito: uma imagem que sustenta a crença antes da coisa existir.

 

Hoje esse mecanismo racha; a imagem deixou de ser prova e passou a ser suspeita por padrão — "isso é real?"... suspeita-se de uma perda da perspectiva imaginativa: a imagem digital, veloz, sem tamanho fixo, sem textura, sem desgaste, chega pronta, sem falha que me convide a entrar — sem qualquer realidade — tornou-se não-imaginação.

 

Esse processo de desmanche da imagem moderna — potente, motor de discursos variados — culminou em uma imagem digital vazia de potência, desconfiada. A retícula da revista impressa, ponto a ponto, reforçava algum sentido de realidade; a imagem digital funciona ao contrário — sem grão, sem ponto, sua perfeição é o que a esvazia.

 

Índice de uma verdade niilista escancarada, ou de uma tristeza existencial?

 

As esculturas de LuscoFusco partem de imagens impressas, carregadas pelas mãos, sem zoom. Pontos numa folha. A imagem impressa não desaparece quando duvidamos dela — fica ali, com peso e defeito, prova de ter atravessado um processo físico real. Cada falha é uma fresta — um pedido de imaginação para ser atravessada. Diante da imagem sintética, lisa demais, plausível demais por ter surgido de outros códigos não físicos, o impresso copiado tem falhas, reproduz suas falhas anteriores e cada cópia também gera novas falhas, mas resiste como coisa, acumula vestígios externos à sua representação.

 

O processo das esculturas fagocita esse atravessamento; esta imagem-vestígio funciona, no trabalho, como um código de desenho de projeto, do mesmo modo que uma linha dupla, num desenho de arquitetura, representa uma parede. O sentido desse código nunca é fixo. Como um jogo, recusa fixar um significado ao vestígio, e a autoria reside na liberdade de metamorfosear esse código na conta do desejo.”

 

Lucas Simões