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Casa Triângulo tem o prazer em apresentar Dois Infinitos, a décima primeira exposição individual de Sandra Cinto na galeria, reunindo um conjunto inédito de trabalhos que aprofundam questões centrais em sua trajetória: deslocamento, horizonte, travessia e a construção poética do espaço. A exposição será acompanhada por textos críticos de Josué Mattos e Priscyla Gomes.
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Há uma coreografia celestial responsável por manifestar a aurora ao final das noites densas. Em sua rotação sobre o próprio eixo, a Terra impulsiona o contar das horas e demonstra a instabilidade do acesso à luz emanada infinitamente pelo Sol. Sua presença em algum canto do planeta equivale, em outro, à noite escura, convocando irradiação e recolhimento. Associados ao tempo implacável e à cadência que expande o espaço, esses princípios se inscrevem nos gestos cultivados por Sandra Cinto há mais de três décadas como a força que pulsa ritmada pela respiração cósmica.
Sobre sua própria pele, paredes e superfícies, a artista confunde o dentro e o fora de modo a considerar toda linha alongada que alude aos cursos d’água originados no cume de rochedos como o espaço íntimo que contribui com a expansão infinita do universo. De fato, dentro-fora, luz-sombra, tempo-espaço, sono-vigília são, em Dois infinitos, elementos com os quais ela traça os elos comuns entre todas as manifestações da vida. Por isso, antes de aludir à estrela sem a qual a vida terrestre seria inviável,a gradação de amarelos de Grande Sol acolhe o espaço interno de cada ser vivo, crescente como o universo que se agiganta a cada expiração.
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A primeira luz, 2026 -
Sendo um dos dois infinitos na obra da artista, o amarelo alcança seu apogeu com o dourado resplandecente, percebido como o centro irradiante de relações entre o íntimo e o universal. Em seu projeto para uma capela-refúgio, composto por oito telas instaladas em semicírculo, o fundo dourado da parte interna é marcado por gestos que se assemelham a orações silenciosas. Sobre ele, linhas descendem por entre rochedos e montanhas, gerando parentesco entre as manifestações sagradas da natureza. A Capela do infinito se desdobra em duas partes: uma, feita de gesto, acolhe névoa, maresia, nuvens carregadas de chuva, crepúsculo e a densidade da escuridão; a outra, interna, é a potência calorosa que faz jorrar olhos d’água, espalhar afluentes e expandir-se em constelações e genealogias. Para a artista, o dentro e o fora refletem os Dois infinitos: a mãe, o pai e quem veio antes; a água, a terra e a diversidade vital; o nascimento, o desaparecimento e a continuidade que perdura para além do visível.
Sua outra cor para o infinito são os azuis com variações de celeste e cobalto. Eles instauram ambientes meditativos fundados sobre a estabilidade da rocha e a fértil montanha, as quais evocam construção e constância, dois substantivos femininos com os quais a artista cria territórios sensíveis atravessados por superfícies e horizontes que instauram o real e o sonhado, a estabilidade e a fluidez.
Do encontro do azul com o dourado, o escuro é convocado para contrastar suas constelações cintilantes, círculos cósmicos e poeiras estelares. No entrelaçamento dos dois infinitos que marcam ciclos de surgimento e desaparecimento, é importante levar em conta a ideia segundo a qual o que desaparece não deixa de existir. Assim como praticamente toda forma de geração de energia pode ser convertida em calor ou em frio, Dois infinitos observa o belo e o espanto ocasionado pela mesma origem enigmática e sagrada.
Josué Mattos
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Antes da chuva, 2026 -
A chuva, 2026 -
Aurora, 2026 -
Amanhcer, 2026 -
O Sol, 2026 -
Dois infinitos, 2026 -
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Paisagem Sol, 2026
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A exposição se configura como um campo tensionado entre dois infinitos. De um lado, o azul profundo, noturno e recolhido, onde a paisagem se densifica e se volta para dentro. De outro, o dourado luminoso, aberto e expansivo, onde a imagem se projeta e se dissolve em horizonte. Entre esses polos, a pintura não se fixa: ela vibra, alterna, se desloca. Há nela uma cadência respiratória, um movimento contínuo de contração e expansão.
Entre cumes que se sucedem e ondas que nunca cessam, há, nessas pinturas, um ritmo vital. As paisagens fabuladas de Cinto são também um mar interior, fluxo de afetos e de memória. A imensidão, como lembra Bachelard, não se mede, se vive. E talvez seja nesse gesto — de abrir o espaço à imaginação — que a obra se realiza: como uma arquitetura sensível onde desenho, pintura e experiência se entrelaçam, e onde o olhar, ao se perder, encontra a sua própria vastidão.
Priscyla Gomes
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