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Casa Triângulo tem o prazer em apresentar Lava-Olhos de Emergência, a nova exposição de Lucas Simões na galeria, com textos de Pollyana Quintella e Ciro Miguel. A mostra reúne esculturas e instalações que exploram a transformação das formas quando elas atravessam diferentes contextos, tempos e repertórios culturais.
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Lava-Olhos de Emergência (Emergency Eyewash Station)
por Ciro MiguelA fotografia em preto e branco de uma cruz desenhada na paisagem é um dos pontos de partida da exposição Lava-Olhos de Emergência. Impressa propositadamente fora de foco e afixada na parede do estúdio de Lucas Simões durante todo o processo de criação, a imagem de 1957 é imediatamente reconhecível.
O cruzamento de duas linhas retas riscadas por tratores na vegetação do Cerrado, capturado pelo fotógrafo Mário Fontenelle de um avião, traduziu em imagem o desenho conceitual do urbanista Lucio Costa para o Plano Piloto da nova capital, Brasília. O encontro dos eixos monumental e rodoviário, uma reinterpretação do Cardus e Decumanus das cidades romanas, seria, nas palavras de Costa, “o gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz.”1Editada para parecer tão abstrata quanto o croqui que a inspirou, a fotografia tornou-se a revelação fantástica de uma civilização moderna inscrita no Planalto Central, imaginado como deserto inóspito e retrógrado.
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Aparelhagem, 2026 -
board, 2026 -
Babadeira nº 5, 2026 -
Brasília reaparece na obra Aparelhagem. O artista replica as colunas do Alvorada, invenção surreal de Oscar Niemeyer para o primeiro projeto oficial de Brasília. A coluna da Alvorada, que para o arquiteto seria uma evolução e superação da coluna grega e do piloti modernista, logo se transformou em ícone pop por todo o Brasil. Virou logotipos, móveis, estampas, souvenirs e foi incorporada em construções vernaculares como ornamentos. Simões recupera essa vocação midiática e intercala os desenhos eruditos de Niemeyer como uma aparelhagem: enormes e monumentais paredões de som e luz de festas profanas de tecnobrega, híbrido musical nascido no Pará. A geometria sensual da coluna, cuidadosamente calculada pelo engenheiro Joaquim Cardoso segundo uma equação de quarto grau [y = 0.037x⁴ − 0.190x³ + 0.381x² −0.048x], inspira línguas que lambem os vãos. O prazer da festa, o prazer do concreto armado, das formas e fôrmas.
Em grande parte das suas obras há um tênue equilíbrio entre o previsível e o acaso, entre precisão e imprecisão, entre o industrial e o manual, entre o imaginado e o real. Na série Babadeira, por exemplo, o artista recria fragmentos de texturas de arquitetura brutalista dos anos 70 a partir de uma estrutura em aço galvanizado milimetricamente definida e produzida industrialmente. Nela, o concreto é despejado manualmente e as formas resultantes são acidentais. Ou em Post Modern Sleaze, na qual cabos, dutos de manutenção adornam temporariamente geometrias replicadas de edifícios espetaculares da arquitetura contemporânea. Apesar de serem exemplos da mais alta tecnologia, dependem da manutenção diária para manter sua imagem impecável e sua performance. Já em mostruário, a distribuição não-compositiva de rebites simula a beleza de reparos sucessivos, uma microarquitetura acidental.
1 Lúcio Costa, “Relatório do Plano Piloto de Brasília,” 1957, in Lúcio Costa: Registro de uma Vivência (São Paulo: Editora 34, 2018), 284.
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Babadeira nº 8, 2026 -
Babadeira nº 7, 2026 -
Paradinha, 2026 -
Post Modern Sleaze, 2026 -
Perizoma Group, 2026 -
Colchetes, 2026 -
Lava-Olhos de Emergência (Emergency Eyewash Station)
por Pollyana QuintellaThe relation between what we see and what we know is never settled.
John BergerHá mais de dez anos, Lucas Simões trabalha testando os muitos modos pelos quais uma matéria nunca é neutra. Ao percorrermos suas obras, vamos notando que objetos carregam hábitos, materiais carregam técnicas, formas carregam ideologias, espaços carregam movimentos, ou seja, existe uma memória incorporada nas coisas, anterior ao objeto acabado e independente da intenção de quem o fez. Isso significa que uma forma chega até nós acompanhada dos usos que teve e dos discursos que a justificam. Discursos que se supunham imateriais estão, na verdade, impregnados na espessura do concreto e na dobra da chapa. Mas, naturalmente, a matéria é também agente. Boa parte da tensão que atravessa a produção do artista vem da percepção de que o material tem também vontade própria, e de que muito do que chamamos de forma é o resultado da intensa negociação entre uma intenção humana e uma substância com dicções próprias.
Seus experimentos, no entanto, nunca permanecem no âmbito do puramente plástico, e o artista vai encontrando, no comportamento do material, algo daquilo que já estava investido nele (...) É assim que o exercício material vai desembocando em tensões sociais e discursivas sem precisar enunciá-las explicitamente. Daí resulta uma obra que oscila entre a miniatura e o edifício sem se fixar em nenhuma escala, e que instala a suspeita de que aquilo que parecia sólido dependia, o tempo todo, de algo que não se via. Nesta exposição, tal suspeita deixa o interior das peças e se instala, literalmente, no ar da sala. -
luscofusco (henrymoore), 2026 -
mostruário, 2026 -
Numa série de trabalhos, o artista escaneia reproduções encontradas em livros de arte e arquitetura, imprime em tamanho reduzido, escaneia de novo, reimprime em outro processo, e repete o ciclo até que o referente persista apenas como vestígio. Dessas imagens exauridas nascem as peças reunidas sob o título Luscofusco. (...) A escultura moderna, que aspirava ao volume pleno e à forma orgânica, retorna aqui como plano recortado, enquanto o volume pertence à máquina que a reproduziu. Polke ampliou o ponto até que ele deixasse de servir à imagem e passasse a ser assunto próprio, mas aqui o ruído retorna não como pintura, mas como peso.
Simões trabalha com um repertório formal que vem acumulando ao longo de anos e que, a certa altura, deixou de resolver problemas plásticos para se comportar como linguagem, e as referências que sustentam esse vocabulário são arcaicas de propósito. Em Xoanon e Mitológicas, o poder simbólico depende de que algo permaneça ilegível. -
replicantes, 2026 -
Cropped Tank Top Artemide, 2026 -
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Em laboratórios e oficinas onde se manipulam ácidos e poeiras finas, há por vezes um curioso objeto chamado lava-olhos de emergência. Como título de exposição, o lava-olhos talvez diga algo também sobre o modo de operar dessas obras. Lucas Simões trabalha sobre aquilo que já foi visto e incorporado, submetendo formas familiares a operações que perturbam sua aparente evidência. O lava-olhos nos conduz a uma dimensão crítica da visão, crítica talvez no sentido mais desconfortável: o de uma visão que desconfia daquilo que vê e, ao mesmo tempo, reconhece-se formada por isso.
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Babadeira nº 6, 2026 -
Gelosia, 2026 -
















